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18 de jun de 2017

Boticario Coffee Man/Woman e Coffee Seduction Man/Woman



Se paramos para pensar é estranho ver que demorou décadas de perfumaria nacional para termos um lançamento que homenageasse o café, um dos nossos principais produtos de exportação e uma grande paixão nacional. A Boticário foi assertiva em perceber essa falha no mercado e no final da década passada lançou a linha Coffee voltada tanto para o público masculino como o feminino. O número de flankers nessa linha mostra que ela se tornou um dos pilares da marca com um bom espaço para exploração, com o lançamento esse ano da dupla Paradiso, interessante numa proposta de verão que foge da temática fresca e se arrisca em gourmands mais intensos.

A dupla original de criações ainda continua disponível para ser comprada e as composições demonstram uma execução que não é literal do aroma do café. Me lembro que quando os senti no lançamento isso foi decepcionante, principalmente na fita olfativa. Porém, o tempo me mostrou que fazer uma composição centrada do começo ao fim no aroma do café é difícil. Primeiro pois o grão tem um perfil olfativo complexo e que depende de inúmeros elementos aromáticos para passar seu aroma, algo fácil de se perder dentro de uma composição. Os aspectos mais marcantes do café também podem ser uma armadilha se exagerados dentro da composição, levando a um fracasso possível de vendas. Creio que justamente por isso nem Coffee Man e Coffee Woman são literais no aroma do café.

A versão feminina, porém, mostra mais as nuances gourmands e o exotismo do café que a masculina e é o grande destaque quando sentido na pele. Os aspectos torrados de café podem ser percebidos na versão feminina, envoltos num creme açucarado e de baunilha e que parece evocar um desses café mais sofisticados que pedimos em uma cafeteria . É interessante que a marca faça uma justaposição desse aroma mais gourmand do café com uma base que equilibra um lado mais oriental de benjoim com um aroma meio musk e atalcado, algo que soa sofisticado e não tem cara de perfume nacional. É uma criação de rastro, que produz uma aura entre o inocente e o mais adulto.

Já Coffee Man mostra muito do que a Boticário é com relação ao mercado masculino, uma marca que aposta no conservador e que não arrisca tanto quanto em suas composições femininas (uma exceção recente a isso é o delicioso aroma gourmand de chocolate e café do Coffee Paradiso). A marca até explora o aspecto mais torrado e seco do café porém não dobra a aposta nele e prefere por em mais evidência uma forma olfativa que aposta no que funciona dentro de um perfume masculino. Assim, o aroma de café acaba disputando espaço com o cheiro fresco e spicy do cardamomo, toques cítricos na saída, uma base ambarada bem comercial e um aroma amadeirado de cedro e sândalo. Não há muitos segredos na harmonia mas é uma aposta que tinha grandes chances de dar certo e prova disso é que continua disponível até hoje no mercado.

2 anos após o lançamento de Coffee tivemos o primeiro flanker da saga, a versão mais sedutora chamada de Coffee Seduction. A versão feminina aposta justamente no aroma gourmand do original, entretanto com um riscos que talvez passem desapercebidos num primeiro momento. Desde a criação de Egeo Dolce o Boticário percebeu que perfumes gourmands com altas doses de baunilha e açúcar vendem muito bem em território nacional e de tempos em tempos a empresa aposta em composições assim. O Coffee Woman original tinha essas nuances, porém sem ser de forma explícita, ao passo que a versão Seduction maximiza essas nuances e ainda dobra a aposta frutal da saída. É uma criação bem interessante pois encontra um jeito de fazer funcionar elementos que poderiam colidir se não fossem bem explorados. É possível observar um aroma frutal de kiwi e carambola em contraste com o aroma gourmand e torrado do café em harmonia com o cheiro de baunilha, algodão doce e resinas orientais. Algumas dessas nuances me fazem pensar em uma criação feminina da Amouage, o caótico e interessante Interlude Woman, porém orquestrado para agradar o máximo possível de pessoas. Não é uma tarefa fácil mas o resultado é bem satisfatório.

Como já seria de esperar, a versão masculina da dupla Coffee Seduction é bem mais conservadora e segura, já que o público masculino nacional apenas recentemente começou a demandar de fato criações mais arriscadas e sensuais. Apesar do lado mais gourmand da ideia ficar em evidência não estamos diante de uma baunilha e algodão doce como temos na versão feminina. As madeiras ainda reinam aqui e servem de contraponto ao aroma torrado do café, que é mais evidente na saída mas que não dura muito tempo nesse posto. A versão Seduction possui menos do frescor spicy e cítrico do tradicional e aposta mais em um aroma amadeirado robusto e fechado, tentando equilibrá-lo um pouco com musk e toques frutados sutis. É um perfume bem feito, porém um pouco anônimo quando se perde seus detalhes, diferente da versão feminina que consegue surfar em uma combinação batida e acrescentar elementos exóticos a ela.