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2 de abr de 2017

Bruno Fazzolari e Antonio Gardoni Cadavre Exquis - Fragrance Review

Português (click for english version):

Eu gosto de perfumes que me desafiam a reconhecer que eu estou errado em subestimá-los. É uma das melhores coisas que pode acontecer, melhor do que quando você fica empolgado com um conceito, lista de notas e se decepciona com a execução do mesmo. Confesso que quando vi o lançamento de Cadavre Exquis torci o nariz para a edição limitada e o preço, ainda mais por ser gourmand. E por ironia do destino (tirando o meu predileto Au Dela Narcisse des Montaignes) Cadavre Exquis é um dos perfumes de Bruno Fazzolari que mais me emocionou.

Para ser justo, na verdade Cadavre Exquis é um projeto colaborativo de Bruno Fazzolari com o perfumista italiano Antonio Gardoni,O processo de criação colaborativa dentro da perfumaria comercial é algo comum, principalmente devido ao ritmo mais acelerado do ciclo de criação de um produto contemporâneo. Entretanto, na perfumaria independente ele é ainda pouco explorado e da forma como foi feito em Cadavre Exquis ele é bem raro. O nome do perfume não foi escolhido a toa, ele faz menção a um jogo muito utilizado pelos artistas surrealistas onde um artista nunca pode remover o que o outro acrescentou e deve acrescentar algo ao projeto sem saber o que foi incluído anteriormente. A ideia desse jogo colaborativo em si já é difícil, entretanto Bruno e Antonio resolveram ir além e trabalhar com uma categoria que nenhum dos dois é muito fã: perfumes gourmands.

Eu vejo que deveria ter confiado no talento dos dois antes de torcer o nariz, pois a experiência em Cadavre Exquis é fascinante. Em uma época dominada por perfumes polidos, Cadavre ousa ser Bruto e Doce ao mesmo tempo. A combinação de elementos gourmands com elementos animálicos para mim é o equivalente de você formar o casa de uma mocinha delicada com um brutamontes peludo, mas o fato é que as diferenças dos dois se completam e eles arranjam uma forma de fazer essa relação funcionar. Às escuras, Bruno e Antônio conseguiram domesticar a brutalidade fecal da civeta com o aroma negro, denso e adocicado do absoluto de cacau. Num primeiro momento, Cadavre Exquis tem um aroma que me remete a um licor de cacau que rapidamente revela suas nuances fecais, intensificando o lado negro da ideia. Conforme evolui ele mantém esse aspecto e acrescenta uma nota intensa de chá de erva-doce, o que dá uma terceira dimensão negra. Nesse momento, tem-se a sensação que o estilo de compor de Antonio Gardoni prevalece.

Esse acorde de civet, chocolate e erva-doce é incrível, intenso e curiosamente cria uma ilusão de um aroma torrado que quase me remete a café. Para que o perfume não caia em um território muito bruto você tem a sensualidade floral atuando em segundo plano, arredondando as arestas e utilizando os tons frutados do ylang para dar mais complexidade a composição. Por fim, Cadavre Exquis termina em uma base amadeirada que parece uma mistura de vetiver, cedro e musks,  um momento que parece ter uma influência forte de Bruno Fazzolari na composição. Cadavre Exquis é certamente aquele perfume que toda pessoa que reclama da redundância na perfumaria deveria sentir. É uma ideia arriscada e que se não for nova é bem pouco explorada. A única tristeza nesse projeto é ele ser restrito a 99 frascos. Deveria ser fixo na linha de ambos por ser tão maravilhoso!

English:

I like perfumes that challenge me to recognize that I am wrong in underestimating them. It's one of the best things that can happen, better than when you get excited about a concept, list of notes and are disappointed with the execution of it. I confess that when I saw the launch of Cadavre Exquis I twisted the nose for the limited edition and the price, even more for being gourmand. And by irony of fate (taking away my favorite Au Dela Narcisse des Montaignes) Cadavre Exquis is one of the perfumes of Bruno Fazzolari that moved me the most.

To be fair, in fact Cadavre Exquis is a collaborative project of Bruno Fazzolari with the Italian perfumer Antonio Gardoni. The process of collaborative creation within the commercial perfumery is something common, mainly due to the faster pace of the creation cycle of a contemporary product. However, in the independent perfumery it is still little explored and the way it was made in Cadavre Exquis it is very rare. The name of the perfume was not chosen randomly, it makes mention of a game widely used by surrealist artists where an artist can never remove what the other has added and must add something to the project without knowing what was included previously. The idea of ​​this collaborative game in itself is already difficult, however Bruno and Antonio have decided to go beyond and work with a category that neither is very fan: gourmands perfumes.

I see that I should have relied on the talent of the two before twisting my nose, for the experience at Cadavre Exquis is fascinating. In a time dominated by polished perfumes, Cadavre dares to be  loud and sweet at the same time. The combination of gourmands with animal elements for me is the equivalent of you forming the couple of a delicate young lady with a hairy brute, but the fact is that the differences of the two complete and they arrange a way to make that relationship work. In the dark, Bruno and Antonio were able to tame the fecal brutality of the civet with the black, dense, sweet aroma of the cocoa absolute. At first, Cadavre Exquis has a scent that brings me to a cocoa liqueur that quickly reveals its fecal nuances, intensifying the dark side of the idea. As it evolves it maintains that aspect and adds an intense note of fennel tea, which gives a third black dimension. At this point, one has the feeling that Antonio Gardoni's style of composing prevails.


This civet, chocolate and fennel accord is incredible, intense and curiously creates an illusion of a roasted aroma that almost reminds me of coffee. To avoid that the perfume  fall into a very brutal territory you have the floral sensuality acting in the background, rounding the edges and using the fruity shades of ylang to give more complexity to the composition. Finally, Cadavre Exquis finishes on a woody base that looks like a blend of vetiver, cedar and musks, a moment that seems to have a strong influence of Bruno Fazzolari on composition. Cadavre Exquis is certainly THE perfume that every person who complains of redundancy in perfumery should feel. It is a risky idea and if it is not new it is very little explored. The only sadness in this project is it being restricted to 99 bottles. It should be permanent on the line of both for being so wonderful!