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16 de mar de 2017

Zoologist Perfumes Civet - Fragrance Review



Quando se pensa nas diferenças entre a perfumaria clássica e a moderna creio que podemos usar a evolução dos formatos de música para entendê-la melhor. A perfumaria moderna é muito próximo da música popular contemporânea, construída muitas vezes de forma simples, usando samples de músicas conhecidas e com poucas camadas de som. Já a perfumaria clássica seria o equivalente das gravações em discos de vinyl e de álbuns onde a instrumentação ao vivo em estúdio acrescenta uma riqueza de detalhes que torna a experiência muito prazerosa para os fanáticos por música.

Da mesma forma que o vinyl, a perfumaria clássica não morreu, mas se tornou um produto mais seletivo e independente. Muitas casas independentes de nicho tem feito perfumes com a qualidade e riqueza dos clássicos e uma delas é a Zoologist de Victor Wong, cujo o conceito da personificação de animais em aromas tem rendido uma coleção diversificada em estilos e muito ousadas.

Para homenagear um dos animais mais conhecidos da perfumaria Victor escolheu uma perfumista que trabalha com estruturas clássicas como se elas fizessem parte de sua existência. Shelley Waddington pode não ser uma das mais conhecidas no meio indie, mas seus perfumes para sua grife EnVoyage Perfumes são uma jornada de luxo e riqueza olfativa e em Civet a perfumista parece estar em um de seus melhores momentos.

Civet é uma das notas mais difíceis de serem trabalhadas para um perfume contemporâneo, principalmente pois o aumento de sua concentração dentro de uma composição vai tornando o perfume progressivamente fecal, criando uma experiência desafiadora. Entretanto, o musk extraído das glândulas da Civeta é um excelente fixador e quando usado de forma sábia se torna uma espécie de aura que exalta a composição e lhe acrescenta um aspecto carnal, dando uma vida nova ao perfume.

A criação aqui me faz pensar em grandes clássicos da perfumaria, recriando perfumes dos dias de glória do Civet. A impressão que eu tenho é como se Shelley tivesse estudado o estilo de criação do grande mestre Roudnitska e entendido sua dinâmica de criação. Civet trabalha em uma dinâmica similar a de um dos grandes clássicos de Roudnitska, Femme de Rochas, lembrando também seu maravilhoso Diorama (e também remetendo a um clássico da Guerlain que trabalha uma dinâmica de notas parecidas, Parure). Todas essas criações são como uma melodia que combina especiarias, flores, notas frutadas e uma base com nuances de musgo e madeiras.

Civet abre com o aroma doce e especiado da canela e com uma impressão de um aroma picante seco que se assemelha a cravo da índia. Em segundo plano, tem-se um aroma de ameixas e pêssegos dando um contorno aveludado, rico e sensual a saída. O café é um elemento interessante, utilizado pela sua ligação com a civeta pelo tipo de café Kopi Luwak (feito a partir dos grãos não digeridos e excretados pelo animal). É interessante que o aroma torrado do café acaba combinando com os elementos da saída e também enriquecendo a textura chypre, compensando as limitações atuais a alguns materiais clássicos. E é conforme Civet evolui que me lembro de Roudnitska, capaz de trabalhar o carnal e indólico e contrastar com a luminosidade, frescor e beleza das flores. Em civet temos também essa justaposição em um corpo floral que remete a uma mistura de jasmim, ylang, rosa e lírio do vale. As vezes a composição também parece ter um aspecto floral e oleoso e que remete ao toque exótico do osmanthus.

Por fim, Civet chega em seu momento mais chypre e é possível perceber o tom mais grave da ideia, uma mistura da terrosidade verde do musgo com o aroma animálico e seco do ambar e com o aroma mais cremoso e amadeirado do sândalo. E de fundo finalmente percebe-se o toque quente e um pouquinho sujo do civet se misturando ao aroma resinoso e levemente doce do opoponax e um leve toque powdery de iris. É uma das partes mais complexas da composição e um dos momentos que muitas vezes na perfumaria contemporânea soa linear e simples. Civet é uma obra-prima que preserva o que há de mais rico e belo no passado e dá uma chance a uma nova geração a conhecer sinfonias que de outra forma elas não teriam acesso.