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17 de mar de 2017

Gri Gri Parfums Sideshow - Fragrance Review


Português (click for english version):

As vezes penso que por mais que tenhamos avançado em diversas áreas da sociedade a perfumaria continua sendo uma das que somos mais caretas. Por mais que com a ascensão do nicho o conceito de unissex tenha tomado maior força ainda sim vemos os perfumes como masculinos ou femininos, ou ainda como voltados para um determinado público e pertencente somente a ele. E é um paradigma difícil de se quebrar totalmente e me vi preso a ele quando descobri que a marca Gri Gri fazia perfumes para peles tatuadas.

O que não me dei conta, porém, é que tais perfumes não são exclusivamente destinados a esse público e muito menos a marca usa o tema de forma leviana para ser descolada. Perfumista e dona da Jardins d'Escrivan, Anaïs Biguine se viu curiosa pelo universo da tatuagem e resolveu mergulhar nele para entendê-lo e desenvolver uma narrativa olfativa que contasse a história da tatuagem ao longo das eras e em diferentes locais da civilização. Sideshow é o quarto perfume de sua marca e dedicado aos circos do século 19, nos quais pessoas tatuadas eram vistas como atrações extravagantes. A perfumista quis capturar esse aspecto exótico em meio ao lado lúdico dos doces vendidos nesse ambiente, principalmente a maçã verde e o algodão-doce.

O mais interessante é que Anaïs Biguine conseguiu justamente o que descreve, algo raro em termos de narrativa de um perfume. Sideshow é uma atração aromática extravagante e ao mesmo tempo lúdica, um exercício do animálico com o doce e infantil. Na saída, um aroma forte de acetatos criam a impressão brilhante, verde e adocicada de um aroma que é uma mescla de maçã com chiclete e morango. Ao mesmo tempo, há uma ilusão floral colorida, algo como uma versão pixelada e vibrante de um ylang. Misturada a ela percebe-se o lado mais extravagante desse circo, um acorde animálico que para mim começa com toques de cominho e cardamomo e vai crescendo na direção do aroma de couro animálico e como nuances de tinta do castóreum, uma escolha perfeita para representar o aspecto da tatuagem. Conforme passe o tempo, Sideshow transforma seu lado mais exótico em um aroma ambarado que se desenrola suavemente em toques amadeirados. Acompanhando tal ato sempre está o aroma adocicado e açucarado do algodão doce e da baunilha.

O que mais me surpreende em Sideshow é justamente a junção de mundos tão antagônicos para mim. Seria possível imaginar o aroma doce de etil maltol, tão usado para criar perfumes gourmands, ser combinado com o aroma animálico e mais vanguardista do Castóreum? Anaïs mostra que não somente é possível, que ambos juntos podem contar uma história e ainda por cima serem bem sensuais na pele, justamente o efeito que uma boa tatuagem causa.

English:

Sometimes I think that as much as we have advanced in several areas of society, perfumery continues to be one of the most caricatured. Although with the rise of the niche the concept of unisex has taken on even greater strength, we still see the perfumes as masculine or feminine, or even as directed to a certain public and belonging only to them. And it's a difficult paradigm to break completely and I found myself stuck with it when I discovered that the Gri Gri brand made perfumes for tattooed skins.

What I did not realize, however, is that such perfumes are not exclusively intended for this audience, much less the brand uses the theme lightly to be detached. Perfumer and owner of Jardins d'Escrivan, Anaïs Biguine was curious about the universe of the tattoo and decided to delve into it to understand it and develop an olfactory narrative that told the story of the tattoo throughout the ages and in different places of civilization. Sideshow is the fourth perfume of its brand and it's dedicated to 19th century circuses, in which tattooed people were seen as extravagant attractions. The perfumer wanted to capture this exotic aspect amid the playful side of the candies sold in this environment, especially the green apple and the cotton candy.

What is more interesting is that Anaïs Biguine did exactly what she describes, something rare in terms of the narrative of a perfume. Sideshow is an extravagant aromatic attraction and at the same time playful, an exercise of the animalic with the sweet and childish. At the opening, a strong aroma of acetates creates the bright, green and sweet impression of an aroma that is a blend of apple with chewing gum and strawberry. At the same time, there is a colorful floral illusion, something like a pixelated and vibrant version of an ylang. Mixed with it is the most extravagant side of this circus, an animalic accord that for me starts with touches of cumin and cardamom and grows towards the aroma of animalic leather and ink nuances of castóreum, a perfect choice to represent the tattoo aspect. As time goes by, Sideshow transforms its more exotic side into an amber aroma that unfolds gently in woody touches. Accompanying this act is always the sweet and sugary aroma of cotton candy and vanilla.


What surprises me most about Sideshow is the combination of worlds so antagonistic to me. Is it possible to imagine the sweet aroma of ethyl maltol, so used to create gourmands perfumes, to be combined with the more avant-garde andaroma of Castoreum? Anaïs shows that not only is it possible, that both together can tell a story and also be very sexy on the skin, just the effect that a good tattoo causes.