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29 de mar de 2017

Bruno Fazzolari Room 237 - Fragrance Review


Português (click for english version):

Uma característica de um perfume único que eu observei durante meus anos de experiência como colecionador e escritor de avaliações é a sua capacidade de nos fazer apreciar justamente aquilo que nós achamos que odiamos de uma forma irreversível. No meu caso, aromas aquáticos e aromas animálicos são duas das fronteiras que não consegui romper - na primeira categoria por serem altamente repetitivos e artificiais e na segunda categoria por terem um aroma sujo que muitas vezes não aprecio.

Eis que me deparo com Room 237, que de fato tem tudo para ser um aroma de um filme de terror ao combinar duas das minhas constantes assombrações na perfumaria. Teria tudo para dar errado, certo? Mas eis que me vejo então diante de algo que me faz repensar algo que não gosto e uma combinação que eu nunca imaginaria que poderia dar certo. Creio que tudo se encaixa aqui pelo talento de Bruno de transitar em seu estilo de criação entre a perfumaria comercial bem redonda e a perfumaria de vanguarda, saturada em determinados aspectos.

O engraçado é que por mais que Room 237 tenha sido inspirado em uma obra de terror, seu aroma em si me faz pensar mais em uma atitude transgressora e uma jovialidade sensual que me parecem típicos da adolescência. Isso não significa que seu aroma seja sem criatividade como em geral os perfumes juvenis são desenvolvidos, mas que ele parece encarnar um frescor juvenil combinado com uma aura suada, cheia de energia e desejo.

Room 237 começa com um acorde mais aquático que faz bem em evitar um uso proeminente de Calone, de forma que sua saída não tem cheiro de ovo. Em vez disso, opta-se pelo uso de aldeídos que criam um aroma aquático fresco, intenso e que remete a melão. Você percebe que esse não se trata de uma saída aquática comercial pela saturação do que vem em seguida, um acorde brilhante que remete a tinta esmaltada recém aplicada em um ambiente. Em seguida, vem a surpresa: um acorde animálico calibrado entre um aroma mais de pele e oleoso do costus com um aroma levemente fecal e com nuances de couro. É um par interessante, o frescor com aspectos de esmalte versus o aroma de pele e couro. E o truque para que isso não se torne cansativo ou sufocante é a forma como Bruno faz a transição, levando o aroma para um território mais normal, uma base amadeirada verde e abstrata que fixa o perfume de uma forma bem persistente na pele. Room 237 pode até parecer assustador, entretanto seu enredo não é maléfico como o quarto que o inspira. Pelo contrário, é impressionante como a combinação funciona, um excelente indicativo de que o problema com a perfumaria contemporânea não são as estruturas que ela usa, e sim a falta de riscos em combinações mais diferentes.

English:
One characteristic of a unique scent I have observed during my years of experience as a collector and reviewer is their ability to make us appreciate just what we think we hate in an irreversible way. In my case, aquatic aromas and animal aromas are two of the borders that so far I could not break - in the first category because they are highly repetitive and artificial and in the second category because they have a dirty scent that I often do not appreciate.

Here I come across Room 237, which in fact has everything to be a scent of a horror movie by combining two of my constant hauntings in the perfumery. It would have everything to go wrong, right? But then I see myself facing something that makes me rethink what I do not like and a combination that I would never have imagined it would work. I believe that everything fits here because of Bruno's talent for transitioning in his style of creation between the well-rounded commercial perfumery and the avant-garde perfumery, saturated in certain aspects.

The funny thing is that as much as Room 237 has been inspired by a work of terror, its scent in itself makes me think more of a transgressive attitude and a sensual joviality that seem to me typical of adolescence. This does not mean that its scent is uncreative as juvenile perfumes are usually developed, but that it appears to embody youthful freshness combined with a sweaty aura, full of energy and desire.


Room 237 begins with a more aquatic accord that does well to avoid a prominent use of Calone, so that its output does not smell like egg. Instead, the use of aldehydes creates a fresh, intense, aquatic aroma that leads to melon. You realize that this is not a commercial aquatic beginning by the saturation of what comes next, a bright chord that refers to the newly applied enameled paint in an environment. Then comes the surprise: an animalic accord calibrated between a more oily and skin scent of costus with a faintly fecal aroma of leathery nuances. It is an interesting pair, the freshness with aspects of enamel versus the aroma of skin and leather. And the trick for it not to become tiresome or suffocating is the way Bruno makes the transition, taking the scent to more normal territory, a green and abstract woody base that fixes the scent in a very persistent way on the skin. Room 237 may look scary, though its plot is not evil as the room that inspires it. On the contrary, it is impressive how the combination works, an excellent indication that the problem with contemporary perfumery is not the structures it uses, but the lack of risks in more different combinations.