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19 de jan de 2017

Ramon Monegal - Avaliação Perfumes Parte 1


Quando se olha a história de divulgação atrelada a marca percebe-se que Ramon Monegal é um típico integrante da perfumaria de nicho que consegue se destacar. Temos novamente o caso de uma pessoa que veio da indústria comercial, trabalhando principalmente para a grife espanhola Myrurgia e depois para várias outras do mercado espanhol. 

Considerando que estamos diante de alguém treinado por grandes perfumistas (Marcel Carles e Pierre Bourdon) e alguém com tanta experiência, era de se esperar que em sua própria grife Ramon Monegal seria capaz de aliar criatividade com conhecimento de mercado e saber criar uma identidade olfativa única. Infelizmente não é isso que acontece e a sensação que eu tenho em sua marca é a de uma espécie de Roleta Russa olfativa: vários perfumes parecem adaptados diretamente de marcas comerciais de segunda linha ao passo que poucos miram acordes mais conhecidos e sofisticados. Falta uma identidade olfativa e é difícil saber o que há criativamente por trás da marca - objetivo parece ter sido criar algo calculado para ser consumido sem profundidade ou coerência entre perfume, posicionamento de preço e conceito. Isso fica mais claro quando se analisa os perfumes que compõe sua marca.

Cotton Musk: por hora esse é um dos piores perfumes que a marca tem e está entre os piores perfumes de nicho que eu já conheci. A ideia de um musk algodão em algo seletivo e caro já me soa barato e incondizente com o posicionamento e o perfume não foge do que se espera. Temos um aroma de um floral branco condizente com um perfume rexona em uma base de musk condizente com um. Para ajudar, há ainda um toque aquático enjoativo e estranho que torna o perfume para mim repulsivo na pele. 

Cherry Musk: outro perfume que tem um conceito e execução apropriado para uma grife comercial  mas que por algum motivo o perfumista achou que fazia sentido em uma linha exclusiva e custando 185 dólares. É um aroma frutal levemente ácido e pálido que evolui para um buquê de flores indistintas e termina numa base de musk levemente adocicada. Poderia perfeitamente ser um splash mais maduro da Victoria Secrets.

Dry Wood: essa composição me parece uma tentativa de aliar um acorde fougere clássico com um toque mais moderno, porém a execução do conceito em si faz com que a criação seja desconfortável e pareça um perfume barato. Os cítricos parecem sufocados por um acorde aromático mais pesado enquanto brigam com uma nuance aquática estridente nos primeiros minutos. Infelizmente conforme evolui Dry Wood revela um acorde amadeirado seco porém desinteressante, acompanhado de uma nota apimentada estranha, picante e queimada ao mesmo tempo.

Agar Musk: da trilogia de perfumes que possuem musk no nome Agar Musk é o único que se salva. O perfume entrega exatamente o que promete, uma interpretação com bastante musk de um acorde de agarwood. É um perfume basicamente de notas de base, um aroma amadeirado, seco, vagamente animálico e com forte presença do ambroxan e do acorde amadeirado mineral que domina a perfumaria comercial.  Poderia ser um perfume de oud de uma grife comercial mais conservadora.

Cuirelle: a proposta de um perfume de couro feminino é por hora um dos perfumes que quase chega no ápice de seu potencial se alguns aspectos de seu aroma fossem estendidos. É um caso interessante de um perfume de couro que começa com uma nuance cremosa e doce que me remete a chocolate branco e violetas adocicadas. Conforme evolui transforma-se em um acorde de couro baseado em patchouli e similar ao encontrado no perfume Bottega Veneta, porém mais discreto.

Mon Cuir: nesse momento o ápice em execução e conceito para os perfumes Ramon Monegal é Mon Cuir e o único que mereceria uma review em separado. Mon Cuir consegue ser complexo e multifacetado e aliar características de um couro mais clássico com uma execução mais leve e moderna, um couro de bétula com toques cítricos porém com uma textura de camurça. É interessante que há leves nuances animálicas, vanílicas e fougere que as vezes remetem ao grande clássico Jicky.Em alguns momentos ainda nota-se uma textura de iris mais vegetal e terrosa na composição. É um dos que de fato entrega a riqueza olfativa que se espera pelo preço que se cobra.

Entre Naranjos: pelas avaliações feitas a esse perfume online eu tinha grandes expectativas que infelizmente não foram correspondidas. De uma grife espanhola eu esperava uma composição de flor de laranjeira que fosse marcante, complexa e rica, afinal a laranjeira faz parte da história olfativa do país. Entretanto, Entre Naranjos começa com um acorde cítrico, levemente amargo e floral que não se sustenta na pele. Ele acrescenta um toque levemente aquático que não combina com o resto e termina numa base de ambergris que soa monótona e rente a pele. É desapontador.


L'Eau Rose: essa é uma das poucas composições que me deixou dividido entre o gostar ou não gostar. Em alguns momentos ela parece basicamente uma variação de Rosa do Entre Naranjos: novamente um acorde aquático e uma base de ambergris misturado com uma aroma floral delicado, só que dessa vez de rosas. É interessante porém que em alguns momentos surgem nuances de flores brancas mais adocicadas, levemente frutadas e com nuances de mel. Temos um aroma de rosa que parece capturar mais o aspecto verde de seu caule e folhas do que das pétalas em si.Assim como Cuirelle, com uma execução melhor poderia ser bem mais interessante.