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6 de dez de 2016

Chanel No 22 EDP e Cuir de Russie EDP - Fragrance Review



Português (click for english version):

Chega a ser curioso ver uma marca como a Chanel que é tão zelosa com seu patrimônio histórico e sua identidade olfativa mexer em uma coleção exclusiva e produzir um resultado que além de não ser espetacular não justifica o aumento de concentração e a alteração de preço. Por mais que os perfumes permaneçam reconhecíveis, os detalhes se perderam, o DNA da marca tornou-se algo ofensivo que precisa ser praticamente escondido e a performance deixa a desejar para um eau de parfum.

Estava apreensivo para testar o N°22, temendo que teria sido de todos os Les Exclusifs o mais desfigurado nessa busca por remover a aura clássica Chanel da linha. Talvez pelas expectativas serem baixas, a nova formulação não me decepcionou tanto. A assinatura olfativa da casa e a semelhança com o No 5 continuam bem evidentes em N°22, porém sua doçura e delicadeza parece que se perderam nessa nova interpretação.

O perfume ainda abre de forma aldeídica, entretanto sem traços mais de pêssego ou um toque aldeídico adocicado logo na saída. Em vez disso, temos o aroma brilhante, intenso e seco de aldeídos que contrastam com um aroma floral mais picante e áspero, um que parece ressaltar nuances de cravo e rosa. O aspecto powdery da assinatura olfativa da marca também é quase inexistente aqui, dando espaço para uma base mais amadeirada de sândalo e musks. No final das contas, a nova versão parece uma cópia do No 5 que tenta evitar processos de copyright por remover elementos importantes da assinatura olfativa da Chanel. É também um dos Les Exclusifs mais fracos em EDP, precisando de uma boa quantia da amostra para permanecer evidente na pele durante o dia.

Talvez Cuir de Russie seja um dos poucos casos onde a remoção do DNA da marca trouxe uma nova face interessante ao perfume - uma que é bem mais unissex ou masculinizada (uma impressão recorrente nessa mudança da linha como um todo). A versão EDT anterior trazia um couro mais powdery, delicado e até mesmo adocicado, mais redondo em seu cheiro e com menos evidência no aspecto cru e seco do acorde mais clássico de couro. Nessa nova concentração, apesar do perfume não ter se tornado mais intenso todos os elementos foram rearranjados para dar ênfase ao aroma de couro propriamente dito.

Cuir de Russie não perde mais tempo em flores, aldeídos e iononas para enfeitar seu couro e vai direto ao aroma mais fenólico, seco e brilhante de um couro que é ao mesmo tempo clássico com um acorde de bétula bem feito  e moderno com uma face que remete um pouco mais a camurça. É possível perceber um cheiro mais amadeirado e ambarado também na saída, algo que remete a uma mistura de vetiver com toques de resinas. Essa nova versão é mais linear e permanece dessa maneira na pele, com apenas alguns momentos trazendo um leve quê floral e powdery, que permanece de forma bem secundária. É um belo perfume clássico com uma roupagem mais contemporânea, porém outro que deixou de ser Chanel e que parece oriundo de outra casa - em especial, remete bastante ao clássico e descontinuado Cuir de Lancôme.

English:

It becomes curious to see a brand like Chanel that is so zealous with its historical heritage and its olfactory identity to tinker with an exclusive collection and produce a result that besides being not spectacular does not justify the increase of concentration and the change of price. As much as the perfumes remain recognizable, the details have been lost, the brand's DNA has become something offensive that needs to be virtually hidden and the performance leaves something to be desired for an eau de parfum.

I was apprehensive to test No. 22, fearing that it would have been the most disfigured Les Exclusifs in the quest to remove Chanel's classic aura from the line. Perhaps because expectations are low, the new formulation did not disappoint me so much. The olfactory signature of the house and the resemblance to No. 5 are still evident in No. 22, but its sweetness and delicacy seem to have been lost in this new interpretation.

The perfume still opens in an aldehydic form, however with no traces of peach or a sweet-smelling 'aldehydic' touch on the opening. Instead, we have the bright, intense, dry aroma of aldehydes that contrast with a more spicy and rough floral scent, one that seems to emphasize nuances of clove and rose. The powdery appearance of the brand's signature olfactory is also almost non-existent here, giving room for a more woody base of sandalwood and musks. In the end, the new version looks like a copy of No 5 that tries to avoid copyright lawsuits by removing important elements of Chanel's olfactory signature. It is also one of the weaker Les Exclusifs in EDP, needing a fair amount of the sample to remain evident on the skin during the day.

Perhaps Cuir de Russie is one of the few cases where the removal of DNA from the brand has brought a new interesting face to the perfume - one that is much more unisex or masculinized (a recurring impression of this change in the line as a whole). The previous EDT version featured a powdery, delicate and even sweetened leather, rounder in its scent and with less evidence in the raw, dry look of the more classic leather accord. In this new concentration, although the perfume did not become more intense all the elements were rearranged to give emphasis to the aroma of leather itself.

Cuir de Russie does not waste any more time on flowers, aldehydes and ionones to adorn his leather and goes straight to the more phenolic, dry and polished shiny aroma of a leather that is both classic with a well-made birch accord and modern chord with an impression of suede. It is possible to perceive a more woody and ambery smell also in the opening, something that refers to a mixture of vetiver with touches of resins. This new version is more linear and remains this way on the skin, with only a few moments bringing a light floral and powdery touch, which remains very secondary. It is a beautiful classic perfume with a more contemporary look, but another one that is no longer Chanel and that seems to come from another house - in particular, it reminds me of the classic and discontinued Cuir de Lancôme.