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12 de out de 2016

Zoologist Perfumes Macaque - Fragrance Review


O lançamento simultâneo de Macaque e Nightingale é bem interesse para mim pois apesar de serem perfumes feitos por perfumistas diferentes e com estilos distintos de criação há uma direção criativa por trás de ambos que os coloca dentro do universo que aos poucos Victor tem construído para sua marca, que traz uma perfumaria de qualidade e acessível, uma que põe o foco em criações abstratas e ao mesmo tempo nos lembra das espécies fascinantes que vivem em nosso planeta e suas personalidades distintas.

Diferente dos outros projetos da marca, Macaque surgiu de uma proposta da perfumista Sarah McCartney. Há uma certa ousadia nisso, que é algo que define bem o trabalho de Sarah e que se reflete em seus perfumes e estilo. Eu me identifico muito com ela, vejo que sua perfumaria parece não ter limites em estilo, notas e alcance. Mais do que isso, quando comparo com os primeiros perfumes que avaliei de Sarah em sua 4160 Tuesdays, vejo que há um crescimento e refinamento em seu estilo ao longo do tempo, um fato que parece mostrar uma pessoa disposta a não somente ir além como também aprender e aprofundar seu estilo.

Macaque foge dos clichês que se esperaria de um perfume inspirado em um primata, ainda mais um primata de um gênero que se espalha por tantas regiões diferentes no mundo, o gênero Macaca. Essa espécie de macaco tem uma alimentação diversificada, que envolve desde frutas a flores. Sarah se inspirou nos Macaques dos templos no Japão, nos seus aromas animálicos discretos, limpos e levemente frutais e também na arte oriental da elaboração de incensos. Como se pode perceber aqui, o uso do oriente de forma não óbvia e com múltiplos significados é o que une o trabalho de Sarah e Toomoo Inabe.

Gosto de como Sarah dá um protagonismo importante ao gálbano nesse retrato. É uma idéia inteligente, considerando as conotações verdes da resina, que criam perfeitamente uma ideia de um possível ambiente onde tais macacos possam viver. Ao mesmo tempo, consigo ver a perfumista encaixando moléculas sintéticas que possuem tanto um aspecto frutal como uma nuance verde de gálbano. Em geral, tais moléculas são usadas em uma composição para dar um aroma de abacaxi, mas aqui elas são trabalhadas dentro de um contexto cítrico do yuzu e de um acorde abstrato de maçã (talvez mais uma maçã verde do que uma vermelha suculenta).

É ainda bem interessante como Sarah consegue honrar a perfumaria clássica e os perfumes chypres florais verdes, mas encaixando uma base mais musky e ambarada, com um leve quê de incenso. Em alguns momentos, Macaque me lembra a sofisticação floral e verde de uma versão mais antiga do Chanel Cristalle EDP, como se na mistura de flores, gálbano e resinas surgisse a miragem de uma madressilva que tem um protagonismo importante em Cristalle. É uma citação vintage inteligente, construída em meio a complexidade do aroma dos cítricos, gálbano, resinas, flores e frutas que permeiam um retrato complexo de uma espécie que é complexa em seus comportamentos e suas relações com o ser humano. Outro belíssimo trabalho dentro da coleção Zoologist.