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10 de out de 2016

Zoologist Parfums Nightingale - Fragrance Review


A essa altura do campeonato eu vejo a Zoologist Perfumes entre as melhores do que a perfumaria independente pode te oferecer. O trabalho que o criador da marca Victor Wong faz se assemelha para mim ao trabalho de curadoria de Frederic Malle. A diferença é que Victor traz para sua marca o melhor de perfumistas independentes que para mim hoje estão entre a vanguarda do que a perfumaria possui para oferecer de qualidade e criatividade. Além disso, Victor e os perfumistas também focam em trazer de volta o encantamento de uma boa história que um perfume pode contar, algo que hoje tem sido deixado de lado para dar foco a história (bem parcial) da qualidade e nobreza dos materiais dos quais determinados perfumes são feitos.

Nightingale é a estréia do perfumista Japonês Tomoo Inaba. No site da marca é possível entender um pouco mais do background de Tomoo, um auto-didata, comerciante de materiais de perfumaria, apaixonado pela escrita sobre perfumes e pelos encantos da perfumaria do passado. Tomoo Inaba conta que Nightingale é inspirado pela chegada da primavera, o florescimento das ameixeiras e os cânticos dos rouxinóis. Ele também dedicado e relacionado um poema feito por uma das irmãs da imperatriz Fujiwara no Kenshi após ela renunciar sua vida de realeza para se tornar uma freira budista. Sua irmã lhe deu de presente um rosário feito de madeira de agarwood em uma caixa decorada com a flor de ameixa. Uma das criações feitas para o uso pessoal de Tomoo, o perfumista a trabalhou junto com Victor Wong para o lançamento dentro da linha Zoologist.

A primeira coisa que eu percebo assim que aplico Nightingale na pele é que de fato esse é um perfume especial, poético. Uma criação complexa e marcante, onde sua história não é apenas um mero pretexto para encher um frasco com um aroma vazio. Nightingale anuncia de fato a primavera, mas não como muitos perfumes o fazem, de forma apática. Ele representa para mim o florescimento da vida que a primavera parece trazer, como se os aromas se conectassem com a alma. E isso é trazido ao encontro do lado sacro e nobre da madeira de oud, que não rouba a cena e está dentro do contexto de um chypre clássico misterioso.

Não sei se Tomoo Inaba se inspirou, mas sua criação me remete imediatamente a um dos perfumes mais icônicos da história da perfumaria, o Shiseido Nombre Noire. A elegância e o contraste da base chypre sóbria e seca versus a beleza da rosa são revividos aqui em um contexto floral complexo, que emula o ar saturado da primavera. Acho belo que as ameixas aqui retratadas tenham um colorido floral branco ao mesmo tempo que há uma suculência e um toque meio amargo nelas que condiz com o contraste no aroma e sabor de uma ameixa.

E o que dizer da base? Sóbria, densa, mas com um tipo de harmonia e conforto que apenas anos de prática te permitem chegar a esse tipo de equilíbrio. O encontro do musgo com agarwood, sândalo e até mesmo toques de iris e musk cria a sensação de uma madeira sagrada, uma beleza que parece trazer consigo uma aura de paz. É uma forma fantástica de finalizar um perfume que é cheio de vida. É o tipo de criação que simplesmente me inspira a escrever, que é difícil para mim controlar as palavras, pois há algo especial que merece ser destacado e honrado. Certamente, uma obra-prima.