Pesquisar este blog

4 de out de 2016

Guerlain Vol de Nuit EDT e Jicky EDT - Fragrance Reviews


Jicky EDT 2016 - Bee Bottle

Jicky EDT me faz pensar que provavelmente Nahema e Chamade, avaliados ontem, mudaram provavelmente antes de irem para o bee bottle, já que faz um tempo que não os sinto e minhas referências de ambos eram versões mais antigas. A nova versão de Jicky EDT no frasco bee bottle é exatamente igual a que eu obti a uns 2 anos atrás e por isso minha avaliação nesse caso é mais um retorno a um dos maiores clássicos da marca do que um comparativo pessoal do que teria mudado em seu aroma.

Podemos afirmar que esse perfume é um patrimônio cultural da perfumaria e um representante de tudo que aconteceu nos últimos 127 anos. Ele é um dos poucos perfumes centenários em produção ininterrupta e seu criação esteve na vanguarda de sua época ao combinar matérias-primas naturais com sintéticos que começavam a se tornar acessíveis ao perfumista no início do que pode se chamar de revolução química na perfumaria. Se hoje vemos (erroneamente) os sintéticos como sinônimo de algo barato e pobre, os perfumes dessa época nos mostram que eles foram elementos importantes para a abtração e criatividade que permitiram a criação de novas famílias olfativas e de perfumes que fossem além dos soliflores, das colognes e dos caminhos possíveis de representação de determinadas notas olfativas.

Ainda sim, confesso que é um dos Guerlains que eu nunca consegui amar durante a minha jornada de apreciação da marca. Jicky é um fougere com indícios já da família oriental que se formaria alguns anos depois, mas seu uso de civeta e ambergris cria um aspecto animálico halitoso que nunca me agradou. A concentração edt é uma das que menos apresentam esse aspecto e que por esse motivo é uma das que eu gosto apesar de não amar. É bem interessante observar a dinâmica clássica de um fougere nela - a refrescância cítrica e amarga que me faz pensar em um mix de bergamota e limões, o uso de ervas provençais dando uma cara mais amarga ao frescor clean da lavanda e toques de musgo de carvalho na base provendo o aspecto terroso e úmido. A coumarina é um elemento importante para acentuar o aspecto fresco meio amargo ao mesmo tempo que ela leva o perfume para um discreto lado amendoado, algo que junto com a iris, baunilha (e muitos outros ingredientes) se tornaria a assinatura olfativa da marca, um aroma adocicado, aconchegante, cremoso e levemente terroso. Em edt Jicky me convida a um uso mais generoso e seu perfume dura sem se tornar invasivo ou forte. Mesmo não sendo um dos meus favoritos admiro sua resiliência ao tempo, um perfume que mantém um público fiel pois sua ideia é boa e bem executada e não depende de marketing/publicidade para ser vendida.

Vol de Nuit EDT 2016 - Bee Bottle

Se eu tivesse que elaborar uma lista com os meus clássicos favoritos da marca certamente Vol de Nuit estaria entre os primeiros. Por isso é com alegria que descubro ao testar o perfume no frasco bee bottle que nada mudou e sua harmonia e riqueza continuam como sempre foram.

Lançado no começo da década de 30, Vol de Nuit nasce em um ambiente de incertezas econômicas, apostando assim em algo que vinha funcionando bem nas últimas décadas, o chypre com nuances de couro. Porém, o perfume que em seu nome faz alusão a um romance que celebra a aviação tem em seu aroma indícios de algo novo que se desenvolveria nas décadas seguintes, o aspecto floral verde que tomaria conta dos chypres.

A aura de Vol de Nuit certamente parece aristocrática e pertencente a outra época, mas tem uma elegância que simplesmente escapa a essas convenções - que é o que faz um bom perfume durar sem ser descontinuado. Seu chypre apesar de remete em estilo o aroma seco, picante e amadeirado de mitsouko hoje me faz pensar no estilo abstrato de criação do Aprés L'Ondee e L'Heure Bleue, outros dois clássicos maravilhosos da marca.

O aroma brilhante e meio amargo dos cítricos está em perfeitas proporções com o aspecto mais verde e também amargo do gálbano e ambos alçam vôo com um toque preciso do brilho dos aldeídos. O que vem a seguir é um floral seco, misterioso, um blend de aspectos da exuberância do narciso, a sensualidade do jasmim e o aroma picante do acorde de flor de cravo. Eles se misturam ao aroma terroso e mais seco da raiz de iris e conduzem a uma base que combina a cremosidade do aroma do sândalo com nuances de couro, musgo e musk. Cada parte em sintonia e com um aspecto sóbrio e bem elaborado que certamente faz jus ao começou glamouroso da aviação. Outra obra de arte que temos o prazer de ainda estar presente entre nós.