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3 de out de 2016

Guerlain Nahema EDP e Chamade EDT 2016 Bee Bottles - Fragrance Review

Português (click for english version): 

O ano de 2016 tem se mostrado desafiador e de certa forma estressante para os fãs mais apaixonados da Guerlain. É um ano de muitas descontinuações e transformações na identidade visual dos frascos e das embalagens da marca. E entre essas mudanças está a unificação de vários clássicos femininos existentes em concentrações EDP e EDT em uma única apresentação, a do icônico frasco das abelhas. Será que isso levou a mudanças nas formulações? Com essa pergunta em mente me aproximo de 4 clássicos que agora passam a ser vendidos nessa apresentação - Chamade, Nahema, Jicky e Vol de Nuit. Nessa primeira parte analiso dois deles que para mim parecem estar relacionados em seus aspectos olfativos, centrados em uma temática floral powdery similar em estrutura e diferente em execuções: Nahema e Chamade.

Nahema EDP 2016 - Bee Bottle
Eu infelizmente não sou da década em que Nahema foi lançado, então não cheguei a conhecê-lo sem os efeitos do tempo. Importante mencionar isso dado que o envelhecimento de um perfume afeta muito em sua dinâmica de evolução na pele. Mas levando isso em conta, a impressão que eu tenho com a nova versão do Nahema é que apesar de ainda ser um bom perfume de rosas ele se tornou bem menos multifacetado nisso, provavelmente por restrições a determinados sintéticos e naturais presentes nas formulações mais antigas. A segunda impressão é que o Nahema de 2016 tende mais para um perfume complexo e moderado dos anos 70 do que a extravagância intensa e exagerada dos anos 80 - considere que ele foi lançado em um período transicional, em 1979.

A versão edp que está sendo vendida agora dá ênfase aos aspectos verdes, cerosos e picantes da rosa e reinterpreta o aroma frutal com nuances de mel em um contexto de frutas silvestres. Logo que borrifado na pele Nahema imediatamente exala aromas de cassis e folhas de cassis, um frutal nada doce, um pouco ácido e verde. A rosa que vem logo em seguida se encaixa nesse aspecto mais verde e seco e é interessante que se o Nahema envelhecido e mais antigo remete a opulência frutal licorosa da Rosa Damascena a versão atual remete ao aroma mais sério e maduro da Rosa de Maio. Acho interessante que tenha sido possível ainda manter o aspecto mais especiado e picante das rosas, algo que aparece logo em seguida na composição, já que temos restrições a sintéticos e naturais que costumam fazer esse papel.

A assinatura olfativa da marca vai aparecendo de forma mais devagar nessa versão, bem como a intensidade que se espera de uma versão edp. O aroma powdery das iononas/iris dá um aspecto brilhante/glossy que aparecia mais rápido anteriormente em nahema mas que ainda está presente. E com ele o perfume vai ganhando os contornos de um Guerlain mais clássico, com uma base amadeirada, de aspectos adocicados, um pouco powdery e bem redonda. É para mim o momento mais gostoso do perfume na pele, uma base que continua bem construída e pensada mesmo com as adaptações que certamente tiveram que ocorrer durante o tempo. Pessoalmente acredito que a perda de opulência e facetas no Nahema fresco o torna mais legível e compreensível - é como se as suas ombreiras da formulação tivessem sido removidas e agora suas curvas ganhassem um pouco mais de destaque.

Chamade EDT 2016 - Bee Bottle

Muito do que eu mencionei a respeito do Nahema na minha avaliação de hoje pode ser aplicado ao novo lote do Chamade EDT que vem agora no clássico Bee Bottle da marca. Ambos trabalham de certa forma uma temática que envolve frutos silvestres + rosas + assinatura olfativa da guerlain e ambos são perfumes transacionais de uma época para a outra, com 10 anos de diferença entre Chamade e Nahema.

Chamade também é um perfume que eu considero difícil em suas formulações mais antigas e maceradas da mesma forma que Nahema, porém com um ar ainda mais datado e de alguma forma senhoril em seu aroma floral atalcado e aldeídico. Esse novo lote mais fresco me parece ter menos desse aspecto, se mostrando um floral um pouco mais doce e talvez mais frutado também, mas um frutado condizente com sua época.

Novamente temos um aroma de frutos silvestres , algo talvez entre o cassis e a amora em aroma, porém um pouco mais suculento devido a nuances de uva que parecem vir de um acorde de flor de laranjeira atuando em segundo plano. A rosa aqui já mostra aspectos do contorno verde que se desenvolveria no contexto chypre floral da década de 70 e as nuances florais metálicas do jacinto ajudam a reforçar isso. Entretanto, essa nova versão do Chamade parece mais um bouquet abstrato de flores do que um enfoque nas rosas picantes, atalcadas e datadas do original.

Acho interessante que a base do Chamade me remete a outro Guerlain lançado 20 anos depois - Samsara. A combinação de sândalo + iris macia e amanteigada + nuances de baunilha remete ao aspecto luxuoso, misterioso e aura exótica de incenso do Samsara, mas um pouco mais contido na intensidade e exuberância. Novamente, o que Chamade perde em impacto no seu aroma para mim ele parece ganhar em foco e em harmonia de evolução. Vejo uma boa adaptação nesse novo lote.

English:

The 2016 year has proven challenging and somewhat stressful for the most passionate fans of Guerlain. It is a year of many discontinuations and changes in the visual identity of the bottles and the brand packaging. And among these changes is the unification of several existing feminine classics  EDP and EDT concentrations in a single presentation, the iconic bees bottle. Does this led to changes in the formulations? With this question in mind I approach 4 classics who now are sold in this presentation - Chamade, Nahema, Jicky and Vol de Nuit. In this first part I analyze two of them that seem to me related in their olfactory aspects, centered on a powdery floral theme which is similar in structure and different in executions: Nahema and Chamade.

Nahema EDP 2016 - Bee Bottle

I  unfortunately am not from the decade in which Nahema was released, so I did not get to know it without the effects of time. Important to mention that as the aging of a perfume affects much in its evolution dynamics in the skin. But taking this into account, the impression I have with the new version of Nahema is that although still a good scent of roses it became much less multi-faceted, probably by restrictions to certain natural and synthetic present in older formulations. The second impression is that the Nahema 2016 tends more to a complex and moderate scent of the 70's than to the intense and exaggerated extravagance of 80's - consider that it was released in a transitional period in 1979.

The edp version being sold now emphasizes the green, waxy and spicy rose aspects and reinterprets the fruity aroma with honey nuances in a context of berries. Once sprayed on skin Nahema immediately exudes aromas of cassis and blackcurrant leaves, a fruity aroma without a sweet side, a little acid and green. The rose that comes soon after fits that greener and dry aspect and it is interesting that the aged and older Nahema seems more linked to the fruity liquer opulence of Rosa Damascena while the current version refers to the more serious and mature aroma of Rosa Centifollia. I find it interesting that it was still possible to keep the more spicy and piquant aspect of roses, something that appears soon after in the composition, as we have restrictions on synthetic and naturals that usually do this role.

The olfactory signature of the brand will appear more slowly in that version as well as the intensity expected of an edp version. The powdery scent of ionones / iris gives a glossy appearance that was noticed faster in  older Nahema but that is still present. And with it the scent is gaining the outlines of a more classic Guerlain, with a woody base, sweetish aspects, rather powdery and well round. It is for me the most enjoyable moment of the perfume on the skin, a base that is still well built and thought even with the adjustments that certainly had to occur over time. I personally believe that the loss of wealth and facets in fresh Nahema makes it more readable and understandable - it is as if in this formulation the shoulder pads had been removed and now her curves gain a little more of proeminence.

Chamade EDT 2016 - Bee Bottle

Much of what I mentioned about Nahema in my review today can be applied to the new batch of Chamade EDT that now comes in classic Bee Bottle. Both work in a way a theme that involves berries + roses + olfactory guerlain signature and both are transactional perfumes from one decade to the other, with 10 years between Chamade and Nahema.

Chamade is also a scent that I find difficult to wear in its earliest and macerated formulations just as Nahema, but with an aura that seems to be even more dated and older in its aldehydic powdery and floral aroma. This new fresh lot seems to have less of this aspect, showing a floral slightly sweeter and fruitier perhaps but still a fruity consistent  with its time.

Again we have an aroma of berries, maybe something between cassis and blackberry in aroma, but with a little juicier side due to grape nuances that seem to come from an orange blossom accord acting in a second plan. The rose here already shows aspects of green outline that would develop in the floral chypre context of the 70s and the metallic floral nuances of Hyacinth help reinforce it. However, this new version of Chamade seems more of an abstract bouquet of flowers than a focus on spicy, powdery and dated roses of the original.


I find it interesting that the basis of Chamade brings me to another Guerlain launched 20 years later - Samsara. The combination of sandalwood + soft and buttery irs + vanilla nuances reminds me the luxurious, mysterious appearance and the exotic incense aura of Samsara, but a little more restrained in intensity and exuberance. Again, what Chamade lose in impact on its scent to me its seems to gain in focus and harmony in its evolution. I see a good fit in this new batch.