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3 de abr de 2016

Evocative Perfumes Imogen, Vanille Tonique e Nirvana - Avaliações


É interessante para mim que de forma não planejada ou inconsciente eu tenha reservado para o final da minha saga os 3 perfumes da Evocative que não se encaixam exatamente na dicotomia que eu apresentei na postagem anterior. É certo que seria possível incluir tanto Imogen, Vanille Tonique  e Nirvana dentro do segundo grupo, o lado mais masculino/unissex que as criações mais focadas em resinas oferecem. Porém, isso seria apenas uma forma de tentar encaixar algo que se mostra de forma singular. Cada uma das 3 criações avaliadas aqui surgiram de lembranças e propostas mais específicas do perfumista e seguiram seu próprio curso e linguagem. E o que é mais curioso é que o aspecto singular de cada uma delas se deve para mim justamente pela familiaridade dos aromas. Imogen, Vanille Tonique e Nirvana são melodias que eu conheço, porém tocadas com uma orquestração excepcional:

Imogen: é interessante para mim ler no blog da Evocative que a inspiração para o surgimento de Imogen se deve justamente na tarefa de Mark em estudar e reproduzir para aprendizado os acordes que formam um dos maiores clássicos de todos os tempos, o belíssimo oriental Shalimar. Isso mostra o quanto as vezes a inspiração para um perfume toma um caminho próprio, como se fosse um ser vivo de natureza singular e que ganha ainda novos contornos assim que é usado e interpretado por quem o  sente. Digo isso pois apesar dos estudos terem sido feitos no acorde oriental clássico do Shalimar, Imogen me remete a outro oriental clássico e que também se tornou um benchmark ao longo de sua existência, o marcante blockbuster da Yves Saint Laurent Opium. Sentir Imogen em seu aroma redondo e harmônico me leva aos tempos clássicos do Opium, tempos que eu não vivi mas tive sorte de presenciar pelas versões vintages que consegui encontrar do perfume. Há algo na combinação de notas resinosas, patchouli, especiarias e aromas adocicados no Opium que é de fato narcótico, viciante e que perdeu sua riqueza nas versões atuais. Imogen vai em rumos bem parecidos, funcionando na versão em óleo com a harmonia e beleza que se pode encontrar na versão extrato. É realmente um grande achado para os fãs desse oriental marcante.

Vanille Tonique:  as lembranças e associações que temos se forma de forma natural e involuntária mesmo que tentemos controlá-las. O que Imogen deveria me trazer a lembrança eu enxergo em Vanille Tonique, outra das criações de Mark com uma história interessante e um projeto que pelo que o perfumista narra deu certo trabalho para chegar a versão final. Tonique surgiu do encontro casual de Mark com um frasco antigo de um remédio chamado Friar's Balsam, composto ao redor da resina de benjoin, dos bálsamos tolú, do estoraque e do peru, da mirra e da angelica. Vanille tonique  é um exercício criativo onde Mark ao imaginar a evolução de tais bálsamos ao longo dos anos se sentiu inspirado ao criar um oriental combinados a cremosidade e doçura da baunilha. Vanille tonique não é a sua baunilha açúcarada e culinária e sim algo que reflete o lado mais dark, misterioso e envolvente da fava, que se combina perfeitamente com as nuances balsâmicas, doces e incensadas que são construídas ao seu redor. Seu aroma me faz pensar no aspecto mais profundo e aconchegante do Shalimar, como se ao remover o foco na parte mais cítrica e  áspera Mark aumentasse o volume das resinas e conseguisse mantê-las em um tom aconchegante, rico e um pouco gourmand.

Nirvana:  em Nirvana vejo que Mark pretendia atingir o estado de perfeição e pureza espiritual que o verdadeiro agarwood é capaz de proporcionar. Ainda que tenhamos presenciado uma onda constante de lançamentos utilizando conceitualmente essa resina, poucos se dão ao trabalho de construir um caminho de iluminação proporcionado entre os aspectos complexos da resina, que vão desde o balsâmico e o adocicado passando pelo floral e indo até mesmo ao animálico e fecal. Ao buscar refletir e construir uma harmonia usando agarwood de verdade, Mark conseguiu equilibrar o aspecto mais complicado e dar uma nuance prazerosa a ele. Percebo o aroma esfumaçado, oleoso e animálico de castoreum complementando perfeitamente o lado mais animálico de agarwood enquanto o uso moderado de uma molécula sintética chamada beta damascona dá um aroma de geléia de rosas e mel que sugere perfeitamente o lado mais floral da harmonia sem ir em uma direção comum. Na base, Nirvana veste o agarwood em um sereno e cremoso sândalo, outra madeira com uma simbologia espiritual fortíssima, e completa o cenário com musks que sugerem de forma distante aspectos de incenso que combinam com o perfil olfativa construído. Nirvana é uma reflexão bem pessoal, rica e luxuosa de um tema que acabou sendo banalizado sem ser explorado em sua plenitude.

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