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27 de mar de 2016

Olfactive Studio Chambre Noire, Lumiere Blanche, Ombre Indigo, Flash Back, Panorama - Avaliações



Eu vejo que no presente cenário da perfumaria independente e de nicho é possível identificar 2 comportamentos bem evidentes. Um deles destina-se a investir no aspecto conceitual da perfumaria, nas criações que nunca veriam a luz do dia em marcas mais comerciais e massificadas pois não venderiam milhares de unidades. O outro me parece buscar um tipo de consumidor que está cansado da segurança e previsibilidade da perfumaria comercial e de massa mas que não deseja algo muito vanguardista e inovador, apenas algo mais luxuoso, complexo e interessante.

Entre esses dois mundos ou pólos me parece transitar os conceitos fotográficos transformados em perfumes da Olfactive Studio. Se essa fosse uma exposição eu diria que Céline Verleure como uma espécie de curadora teve o cuidado de criar uma espécie de escala de complexidade, com perfumes que vão do instantaneamente gratificante, fácil de digerir e um pouco previsível aos conceitos mais arriscados e difíceis. É certamente para mim uma visão de uma mulher de negócios que quer muito bem balancear o aspecto artístico e comercial de sua marca. Concluo minha jornada pelos perfumes da marca resumindo minhas impressões sobre os 5 elementos restantes da coleção.

Chambre Noire: a primeira vez que senti a um ano atrás o aroma de Chambre Noire não lhe dei o devido valor que dou hoje. É certamente um dos melhores da marca se não for a sua obra prima. Acho interessante o como o conceito da câmera escura de fotografia é explorada numa composição que cria uma base densa de incenso, ambar, patchouli e baunilha para refletir a doçura frutada de um acorde de jasmim, violeta e ameixa. É um aroma quente, fumegante, espesso e doce e ao mesmo tempo frutado, brilhante, um pouquinho floral. É como se sua composição, assim como sua fotografia, estivesse entre um mundo clássico e um mundo moderno e a interpretação apenas depende do ângulo pelo qual se observa.

Lumiere Blanche: o que eu observo e mencionei nos primeiros parágrafos de meu texto pode ser visto claramente no contraste entre o perfume Chambre Noire e Lumiere Blanche. Enquanto Chambre é o lado mais conceitual e arriscado, Lumiere Blanche certamente flerta com uma perfumaria comercial chic e fácil de agradar. Alguns conceitos já nos trazem certas impressões embutidas e a questão da luminosidade e da cor branca é um deles. É bem raro ver um perfume que não recorra a cítricos, notas cintilantes ou musks e Lumiere de fato não foge disso - seu aroma é um coquetel macio de musks brancos limpos misturados a cremosidade do sândalo e as nuances de rosa e minerais que o material sintético cashmeran proporciona em um perfume. Porém, parte cítrica é deixada de fora para incluir o aroma mais fresco e ainda picante do cardamomo e toques mentolados de anis estrelado e especiadas da canela. Assim como SelfPortrait, Lumiere Blanche me soa um pouco mais estrutural, mostrando rapidamente os elementos do final da composição e com uma dinâmica inicial que evolui muito rápido.

Ombre Indigo: voltamos ao lado mais conceitual e arriscado da marca com Ombre Indigo, que também trabalha uma justaposição de escuridão e luminosidade em seu aroma e que para mim parece uma espécie de interpretação moderna dos aromas sintéticos que temos visto fazer o papel de agarwood em diversas composições comerciais, de nicho ou de perfumaria mais luxuosa/seletiva. Em vez de utilizar o aroma da nargamota com musks, rosa, notas animálicas e açafrão para dar um ar de "perfume de oud", a planta tem seu lado mais esfumaçado e seco contrastado com um aroma de vetiver que se mostra tanto amadeirado como doce e embebido em resinas. Eu vejo que as notas cítricas na saída são utilizadas para trazer ao destaque o lado mais cítrico que o aroma do vetiver possui, fazendo o papel luminoso entre o lado mais dark da composição.

Flash Back: apesar de dentro da coleção Olfactive Studio não ter nenhum perfume que eu tenha odiado ou desgostado, Flash Back é o que menos me agrada ou que para mim poderia explorar de forma mais interessante o conceito. Não gosto da fotografia, que em sua distorção não me faz pensar no passado, e também não sou muito fã do perfume, que não tem uma ligação clara com perfumes clássicos ou de alguma era em específico e que me parece favorecer mais os aromas amadeirados e almiscarados da base em detrimento a saída azedinha e frutal de ruibarbo, grapefruit e laranja. É conceito que na minha opinião poderia ser retrabalhado do zero - tanto na fotografia como no aroma em si.

Panorama: eu colocaria Panorama junto com Ombre Indigo entre as obras primas da marca e entre as composições que consegue unir com perfeita harmonia conceito, fotografia e aroma. É em perfumes como Panorama e Ombre Indigo que o verdadeiro potencial da marca de Céline é revelado. Assim como a belíssima fotografia, Panorama captura uma visão ampla, complexa e ainda sim harmônica da vida em uma espécie de jardim cercando uma construção arquitetônica moderna. O aroma verde de Panorama trânsita entre o cheiro lactônico, frutal e herbal das folhas de figo, o amargo remetendo a tinta e a grama recém cortada do gálbano, as nuances úmidas e aquáticas da folha de violeta e os aromas cítricos que cercam a ideia, girando em torno de algo que remete a limão e completa bem a ideia verde panorâmica que é capturada. A base aqui é utilizada mais como apoio e fixação para o tema que se desenvolve nos primeiros minutos na pele e que dura um bom tempo na pele.


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