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31 de mar de 2016

Evocative Perfumes Fleur de Magnolia, Jasmin Tabac, Siberian Fir, Olibanum, Sacred Spaces - Avaliações

Um perfumista não difere muito de um autor de livros, músico ou pintor quando ele se volta em sua obra primeiramente para expressar a si mesmo do que para refletir um possível público. Nem sempre tais artistas criam um conjunto de obras fácil de ser digerido ou entendido, entretanto há sempre um fio condutor que te faz capaz de perceber uma visão clara de mundo e uma forma de se expressar e de querer dizer algo. É um bom indicativo quando encontro isso em uma marca e vejo que em marcas indies como a Evocative perfumes isso é mais fácil de ser visualizado.

No caso de Mark, há uma certa dicotomia entre seus perfumes; uma parte deles miram a expressão plena das diversas formas que as flores podem se expressar, criando assim uma aura as vezes mais feminina e sensual; em uma segunda parte, há um pleno controle e foco no mistério, riqueza e serenidade das resinas, ervas e madeiras, em algo que poderíamos identificar com mais masculino ou unissex talvez. E analisando cada perfume é possível explicitar essa forma dualista de se expressar:

Jasmin Tabac: dos florais de Mark certamente Jasmin Tabac é o que se mostra menos minimalista e mais expansivo, fazendo uma discreta ponte em direção ao universo mais resinoso e masculino de parte de suas criações. Há uma espécie de equilíbrio para mim entre o tabaco e o jasmim, e que talvez não seja tão perceptível logo na saída já que o aroma floral domina de forma rica. Estamos diante de um jasmim sambac, frutado, um pouco polvoroso, doce e cítrico, que se mostra com pequenas facetas. O tabaco aparece envolvendo-o, dando-lhe nuances balsâmicas, especiadas, ambaradas e um pouco picantes talvez. Na base seu lado mais esfumaçado aparece, envolto na maciez de moléculas que criam uma base que foca primariamente em ambregris e musk. É possível perceber de relance a entre o jasmim e o tabaco, uma rosa aveludada, delicada e levemente frutal.

Fleur de Magnolia: a Magnólia é uma flor que geralmente tem sido retratada dando ênfase ao seu lado mais cítrico e herbal, mas aqui Mark prefere lhe dar uma impressão mais conceitual e abstrata, enfatizando seu  lado floral branco e carnal. Para isso, incorpora-se a composição um lado floral branco e um pouco amargo da Flor de laranjeira e suas folhas e um jasmim narcótico, que evidencia menos seu lado frutal e mais o aspecto floral branco lustroso. Fleur de Magnólia aos poucos se transforma em uma segunda pele floral branca e elegante, terminando em um acorde de musk similar ao encontrado em Aquarelle e Evelyn's Rose. Nesse caso parecemos estar acessando a lembrança do perfumista de um pomar de flores brancas, da mistura de seus cheiros prevalecendo no ar.

Siberian Fir: eu diria que de todos os perfumes testados até agora Siberian Fir é o que me parece mirar um público bem específico com sua predominância do aroma de abeto na composição. Seu cheiro me parece austero, misterioso, como uma jornada em uma floresta de coníferas em plena luz do dia. Não estamos em um momento abafado, então é interessante observar o contraste entre o cheiro mais seco e que remete a pinho com nuances mais mentoladas e discretamente frutadas. A base da evolução é como uma espécie de nicho nessa floresta, onde as árvores cedem espaço para um tapete de arbustos aromáticos que remete a cheiro de madeira, grama e resina doce e macia.

Olibanum: de certa forma, Olibanum está relacionado a Siberian fir com sua aura misteriosa e até mesmo austera. Estamos diante de uma representação multidimensional de uma das resinas de uso mais antigo na história da humanidade. O óleo essencial de olíbano é interessante pois vai em 3 direção: algo cítrico e brilhante, que remete a limão, uma nuance leve e um pouco doce de incenso e por fim um lado mais pesado, herbal, quase queimado, que não é exatamente fácil de ser "digerido" quando se sente de forma isolada. Mark trabalha com tipos diferentes de incenso favorecendo principalmente o lado brilhante, cítrico e esfumaçado. Ele é contextualizado com toques especiados secos de junípero e uma confortável  base de aspecto amadeirado, levemente terroso, sutilmente atalcado e com nuances de couro -  fruto certamente do uso de materiais sintéticos para a criação de um acorde muito bem feito de iris.

Sacred Spaces: é relativamente fácil de perceber a intenção e memória olfativa de serenidade e contemplação meditativa capturada por Mark em Sacred Spaces. Ao mesmo tempo, a forma como sândalo, mirra, musks e outras notas amadeiradas e incensadas são trabalhadas na composição me trazem uma memória bem pessoal minha, o cheiro de um sapato novo de couro nobuk. É interessante como o aroma da mirra diluído e combinado com outras essências consegue passar a maciez e aroma veludo que o couro nobuk de um sapato possui assim que você o tira da caixa. É um cheiro macio, elegante e bem confortável de ser sentido durante o dia.

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