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6 de fev de 2016

Lancôme Magie Noire EDT e Parfum - Avaliação



É interessante provar um perfume como Magie Noire para que se perceba o quanto a perfumaria feminina mudou drasticamente em um período curtíssimo de tempo. Nos últimos 15-20 anos a figura do que deveria ser um perfume feminino mudou de algo mais cerebral complexo e misterioso para algo mais óbvio, superficial e muitas vezes feito mais para agradar a quem sente do que a quem usa. Isso faz com que perfumes do passado hoje soem quase como perfumes masculinos ou de nicho dado a discrepância entre as visões.

É possível extrair muito de Magie Noire do que apenas seu aroma e sua visão diferente dos padrões atuais e gostaria de explorar rapidamente isso. Primeiro, é interessante notar o como a perfumaria tinha um caráter mais puramente controverso e profundo em sua temática - veja que estamos diante de um perfume que além de aludir aos tempos medievais e a símbolos cabalísticos em seu frasco tem em seu nome uma referência direta a magia negra. Não é, entretanto, uma ocorrência em isolado e é possível perceber nessa época um movimento que deixava de lado uma temática mais romântica e explorava conceitos darks, polêmicos e subversivos - Opium, Obsession e Poison são bons exemplos disso.

Magie Noire também  parece fazer uma junção da tensão entre passado e futuro que parece definir a perfumaria da década de 70 - é uma década onde encontra-se ao mesmo tempo o fascínio pelo oriente e perfumes que redescobrem bases orientais intensas e uma busca pelo aroma mais natural e verde, redescobrindo composições chypres e explorando de forma mais evidente nelas o aroma do patchouli, um dos símbolos da libertação e movimento hippie da década de 70.

Sempre tive certo receio de conhecer as diferentes versões de Magie Noire pois via nos seus comentários que seu aroma era pesado e carregado em notas animálicas difíceis de serem usadas. Como descobri recentemente, isso faz parte da versão edp e parfum relançada para se enquadrar com os rastros quilométricos e os excessos da década de 80. A versão parfum e edt mais antiga tocam em uma alquímia aromática negra porém com um tom aveludado e harmônico que você praticamente não percebe que foi enfeitiçado pelo seu maravilhoso cheiro.

A principal diferença entre as versões EDT e Parfum pré anos 80 me parece estar concentrada no foco em determinadas partes do aroma. A menos concentrada, a edt, explora de forma mais evidente o aroma amendoado e almiscarado da fórmula, envolvendo-o em toques de flores brancas, metálicas e verdes. Parece-me também que é explorado um estilo mais clássico de composição, uma forma abstrata onde cada nota é dosada em quantidades pequenas e combinada com outras para que haja uma sinergia e a formação de um aroma abstrato. Assim, temos um contorno que remete a cheiro de flores brancas secas, sem um aspecto tão carnal. Percebo a exploração dos tons mais verdes do narciso e do metálico do jacinto, porém de forma suave, envolto em nuances amendoadas discretas e um musk aconchegante. De fundo, o castoreum  acrescenta um dos aromas animálicos mais macios e fáceis de agradar que já senti. Seu cheiro mais negro e oleoso quase não aparece, provavelmente mascarado por materiais de maior volatilidade. Percebe-se seu aroma quente de couro mais na base, envolto nos musks macios e um pouco animálicos.

A versão parfum possui os mesmos elementos florais, verdes, almiscarados e animálicos, porém o foco é bem maior em um dos aromas que definiu a década de 70, o patchouli. Estamos certamente aqui diante de um patchouli de alta qualidade, sem os resíduos aromáticos da destilação, sem muito aroma de cânfora e com um perfume gourmand amargo e alcóolico. Mistura-se a ele um aroma de rosas de damasco e o par não soa muito distante dos perfumes orientais atuais que usam oud e açafrão para conferir um ar opulento e intenso.  Aqui, entretanto, o cheiro floral licoroso e frutado da rosa de damasco se mistura aos tons metálicos do jacinto, ao cheiro floral branco, as nuances verdes do narciso e aos tons amendoados de musk. A combinação tem um tom polvoroso aveludado, discretamente animálico e de uma elegância que infelizmente ficou no passado. É certamente uma magia que se tornou esquecida  no nosso tempo.