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27 de jan de 2016

Dawn Spencer Hurwitz Coleção Giverny In Bloom - Avaliação



A perfumaria não apenas é uma arte multi sensorial e multi conceitual quando tratada dessa forma. Ela também se integra perfeitamente com outras artes e torna a experiência ainda mais gratificante. Dessa forma, a colaboração entre a pintora e perfumista Dawn Spencer Hurwitz e a exposição Giverny in Bloom do Denver Art Museum é a colaboração perfeita e um belo exemplo dessa possibilidade.

Um dos temas recorrentes na pintura impressionista e principalmente na pintura de Monet é a captura de belas paisagens de jardins repletos de vida. Com a exposição Giverny in Bloom, o o Denver Art Museum propôs ao expectador uma imersão nas sensações desses jardins que inspiraram diversas pinturas belíssimas por meio de uma seleção especial de obras relacionadas ao tema e a criação de uma sala com diversos painéis fotográficos grandes para passar a sensação de uma imersão pelos jardins que inspiraram Monet. E para que essa experiência fosse mais realista, fizeram uma parceria com a Dawn para a criação de uma coleção de perfumes que refletisse tal cenário.

Os 4 aromas propostos por Dawn não apenas possuem uma sensação clássica, natural e rica como também são capazes de capturar a preocupação impressionista mais relacionada a abstração, ao registro da impressão transmitida. Não estamos diante de um jardim realista, apesar de ser possível perceber os elementos dele em cada perfume, e sim de uma poesia em forma de aroma, que captura as nuances abstratas da mistura da riqueza de vida aromática em um ambiente como tal. Os perfumes estão claramente integrados e passeiam pelo aroma da folhagem ao registro das flores e talvez a sensação do ar também. E por isso vale a pena avaliá-los como um conjunto, conforme farei abaixo:

Le Jardin Vert: é um dos meus prediletos do conjunto que representa a exposição. Ele passa a primeira impressão do jardim, um aroma que remete ao cheiro das plantas, o aroma das madeiras no ar, algumas exalando compostos provenientes de suas resinas, e o cheiro da terra. Gosto do aroma de grama recém cortada do gálbano, o cheiro terroso e levemente salgado do musgo, o aroma amadeirado e herbáceo do vetiver e os toques florais verdes sutis e discretos. Eles são o elemento que liga o jardim a próxima etapa de percepção, a parte floral do jardim.

La Danse des Bleus et Violettes: além da divisão entre diferentes elementos aromáticos do jardim, vejo que há uma temática que liga os aromas a impressão de determinadas cores. Em La Danse, temos a utilização de flores azuis e roxas como violetas, lilás, iris e heliotropo para transmitir uma ideia floral aerea, metálica, talvez um pouco melancólica e levemente aquática. A impressão que eu tenho é que estamos no jardim no início da manhã e as flores ainda não começaram a emitir de forma intensa seu cheiro. Capto sugestões do aroma adocicado das violetas, tons amendoados do heliotropo, o cheiro delicadamente terroso e um pouco aquático da iris e o aroma do lilac, que me passa uma sensação de cera perfumada e um tom metálico e frio. O perfume me parece ter uma base bem transparente de musk e de todos é o mais luminoso e delicado na pele.

L'Opera des Rouges et des Roses: esse para mim representa a parte mais viva, intensa e marcante do jardim e está claramente associada com a cor vermelha. L'opera des Rouges et des Roses passa uma abstração deliciosa do cheiro quente, licoroso, especiado e marcante que resulta da combinação das rosas, peônias, gerânios e e cravo. As rosas até possuem um tom levemente frutado, mas é o seu lado que remete a bebida alcóolica que é sugerido de forma mais evidente aqui. O cravo ajuda a contribuir com um toque atalcado retrô e picante, porém de forma muito harmônica. A Base apresenta uma sinfonia de elementos mais orientais e amadeirados que me passam talvez a sensação de estar presenciando o jardim agora no momento do pôr-do-sol.

Giverny in Bloom: esse é o perfume que nos mostra o colorido completo dos elementos do jardim, como se os anteriores fossem zooms dele em diferentes momentos do dia. O verde acaba sendo uma parte abundante e predominante nessa criação, o que me faz ligá-lo facilmente ao Le Jardin Vert. Aqui, percebemos o cheiro de grama cortada e o aroma de terra e das resinas se misturando a sinfonia dos aromas da rosa, das flores brancas, roxas e azuis retratadas. A temática floral dele é ainda mais abstrata que as anteriores, de forma que percebo trechos dos aromas de rosa, jasmim, peônia, iris e violeta se misturarem ao colorido verde, amadeirado e chypre da composição. É um resumo maravilhoso que nos leva entender toda a poesia de aromas que tanto inspirou Monet em suas belíssimas obras.

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