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28 de out de 2015

Comme des Garcons + Stephen Jones: Stephen Jones e Wisteria Hysteria - Reviews


Nem é preciso saber que a parceria entre o chapeleiro Stephen Jones e a Comme des Garcons antecede em muitos anos o lançamento do primeiro perfume da colaboração em 2008. Ao pesquisar e ver as imagens dos chapéus produzidos por Stephen Jones encontra-se a mesma estética desafiadora, conceitual e claramente pautada no limite entre abstração e usabilidade, uma visão presente no universo da CDG também. E é exatamente essa simbiose entre de conceitos parecidos em universos diferentes que é transposta para uma das melhores colaborações já feitas pela casa.

Uma coisa louvável na perfumaria da CDG sempre foi transforma o sintético, o conceitual e até mesmo o estranho em algo usável, comercial e marcante e isso é mantido nas duas colaborações, tanto na primeira fragrância como na continuação da parceria em 2014 com o excelente Wisteria Hysteria. A tensão entre passado versus presente e conforto versus estranheza para mim coloca ambos os perfumes em um curioso espaço onde o retrô se mistura ao futurístico como se nunca tivessem sido separados.

Na criação de 2008, chamada simplesmente de Stephen Jones, isso pode ser percebido pelo tema escolhido "uma violeta atingida por um meteoro". O aroma das violetas é bem conhecido da perfumaria retrô, explorado tanto pelas nuances aquáticas das folhas como o aroma adocicado e levemente atalcado das iononas, muito utilizadas para acordes de violeta na perfumaria clássica. Elas fazem, junto com o aroma de rosas, o papel do retrô na composição, enquanto uma interessante mistura de aldeídos, moléculas de ambar e musk parecem compor para mim o aspecto quente, mineral e abstrato sugerido pelo meteoro. Há algo na composição que é cintilante, metálico, fresco e sugere a um aroma de pimentas verdes e isso contrasta com o aroma doce, fresco e retrô das violetas e rosas. Tons de aromas florais apimentados aparecem em alguns momentos, complementando a composição. De fundo, um aroma amadeirado seco se mistura ao cheiro de ambar e musk que parece ecoar o calor do meteoro nos momentos finais da composição.

Na criação de 2014 essa relação entre retrô e futurístico não é tão explícita na temática da composição e sim na escolha da transição entre as diferentes fases da composição. Stephen Jones foi inspirado no cheiro das flores da Glicínia e seu maravilhoso cheiro de flor de cravo apimentada. Assim como as violetas, perfumes com flor de cravo foram famosos no século 19 e 20 e com o tempo adquiriram um aspecto antigo, sendo apenas recentemente resgatados nas tendências. Em Wisteria, esse aroma atalcado, quente e seco da flor de cravo é interpretado sobre a ótica do aroma de incenso de um floral metálico que me faz pensar em flores de jacinto. A justaposição entre a sensação metálica de jacinto e quente e seca de cravo é interessante, um pouco dissonante talvez. Ela evolui para a parte moderna e futurista da composição, que utiliza o excelente aroma de ambroxan e de musks para conferir uma aura brilhante, um pouco plástica e ao mesmo tempo sedosa, seca em aroma porém macia em textura.

Note-se ainda o interessante embalagem, que imita as caixas de luxuosos chapéus, e os belíssimos frascos em cores sóbrias, clássicas e elegantes. Vê-se que o motivo de sucesso é um cuidado meticuloso com a identidade das duas marcas, a construção do conceito, o equilíbrio dos elementos e a apresentação final. É um produto que encanta os olhos e o nariz.

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