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28 de set de 2015

Magnolia Grandiflora Michel e Magnolia Grandiflora Sandrine Avaliação


Um aspecto atual tanto da perfumaria moderna quanto da crítica moderna de perfumaria que muito me incomoda as vezes é a necessidade de literalismo quando se trata da interpretação de uma determinada temática, seja uma flor, uma madeira, uma especiaria ou qualquer outro material. Me parece um retrocesso tão grande que se julgue uma composição pela sua capacidade de capturar um determinado cheiro de forma realística. Isso seria possível? Eu sinceramente acredito que não, visto que uma flor não é um objeto aromático uniforme, sem variações individuais e temporais.Não existe o cheiro universal de uma flor, o que temos são fotografias, uma visão de acordo com os olhos do artista que a interpreta. No caso de Magnolia Grandiflora, temos duas visões, de dois mestres distintos, dois diferentes mundos unidos pela mesma flor e por um mesmo grande perfumista.

Tanto Sandrine como Michel possuem em comum Edmond Roudnitska, o grande mestre perfumista responsável pelas obras de arte clássicas e atemporais da Dior e celebrado pelo que é considerado um dos melhores perfumes de lírio do vale de todos os tempos, Dioríssimo. Eu vejo no trabalho do Roudnitska uma abstração sempre capaz de equilibrar luz e trevas, de irradiar uma aura aromática que te conquista nos mínimos detalhes. E de alguma forma, isso ecoa tanto no trabalho de sua pupila como no de seu filho.

É uma pena que Sandrine tenha falecido tão jovem. Vejo por sua interpretação da Magnolia uma luz serene, um momento de paz capturado no tempo. Ela faz da flor uma harmonia entre masculino e feminino, entre incenso, cítricos e especiarias, com um tom esfumaçado aldeídico que parece acompanhar a composição do começo ao fim. É como se a magnólia desabrochasse revelando seu lado mais cítrico e levemente apimentado, mais masculino, com um leve candor floral branco, que me remete a parte mais suave do gerânio e da rosa. É interessante como o incenso emana em harmonia com a parte mais cítrica e floral, sem soar muito esfumaçado ou muito leve. É um último trabalho de um talento que infelizmente nos deixou muito cedo mas que mostrava ter aprendido muito com o jogo de abstração e harmonia do seu mestre.

Já na visão do Michel, eu vejo o lado mais sensual das idéias do Edmond Roudnistka, especificamente me lembrando do aroma chypre floral aquático do Diorella. É como se Michel trouxesse a vida uma Magnólia mais retrô, sem compromisso de ser literal, uma abstração que sugere suas nuances mais cítricas e verdes e as envolve em uma fina aura floral lactônica de jasmim. A chave novamente aqui é equilíbrio, uma sensualidade que sugere um lado levemente indólico sem nunca levar o perfume para um caminho muito animálico. Na visão de Michel, vejo um belo floral retrô de sensualidade raramente vista hoje.

Eu creio que se Edmond Roudnitska estivesse vivo, teria ficado orgulhoso do trabalho de sua pupila e de seu filho. Sua máxima foi capturada de maneiras diferentes por ambos, a de que um belo perfume é um que trás um choque, um sensorial seguido por um psicológico. Não importa que nenhum deles seja realmente literal, ambas as visões da flor são belos perfumes.

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