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13 de ago de 2015

Dior La Collection Couturier Feve Delicieuse e Cuir Cannage Fragrance Review


Português (scroll down for english version): Cuir Cannage e Feve Délicieuse me parecem fazer parte de um fenômeno que tenho observado na perfumaria recentemente, o de retorno ao clássico e já explorado. Isso certamente está alinhado com os tempos de crise econômica e incerteza global que vivemos - a perfumaria, assim como outros negócios, é um segmento que reflete o comportamento da sociedade e o interpreta em termos olfativos. No meu ponto de vista pessoal, isso não é necessariamente ruim quando a exploração do clássico é feita com harmonia, atenção nos detalhes e alinhamento com o conceito proposto. Por isso, partindo desse pressuposto é que considero excelentes os 2 últimos lançamentos dentro da coleção exclusiva da Dior com cada um homenageando estruturas clássicas diferentes.

Tenho visto certa resistência quanto a Feve Délicieuse e me questiono se isso não aconteceu justamente pela reprodução mais realista do aroma da fava tonka. Ao cheirá-la pessoalmente, você percebe que ao mesmo tempo que o aroma é agradável ele também pode cansar o nariz, já que o cheiro é uma mistura de baunilha, cereja, remédio e grama cortada. Todas essas nuances podem ser percebidas em Feve Délicieuse, envoltas em uma harmonia floral que dá uma dimensão mais complexa ao perfume do que meramente uma reprodução literal da fava. A primeira impressão que eu tive foi a citação ao clássico Shalimar por uma via indireta, Must de Cartier. Isso se deve provavelmente ao uso de uma aura floral abstrata de jasmim com o uso do hedione e a uma base que complementa a doçura oriental da baunilha com uma cremosidade almiscarada. Isso é mais perceptível após a saída, depois que o cheiro de caramelos, cereja e a nuance levemente medicinal começam a suavizar e o perfume ganha uma nuance de frésia e jasmim ao mesmo tempo que apresenta a base oriental focada no musk e na baunilha. Há detalhes secundários interessantes em Feve, como o sutil cheiro de couro e sândalo que as vezes prevalece e um acorde de ambar centrado no benjoim que se revela mais evidente na pele bem mais para o final da evolução.

Cuir Cannage também é uma espécie de homenagem a clássicos da perfumaria, entretanto ao segmento dos perfumes de couro, que remontam as origens da perfumaria ocidental como a conhecemos, onde aromas eram utilizados para mascara o cheiro do tratamento do couro animal utilizado para fazer luvas e outras peças de uso pessoal. Cuir Cannage é inspirado no aroma da parte interna de uma bolsa, e certamente essa é uma bolsa que carregou clássicos como Knize Ten e Tabac Blond. O que mais me encanta aqui são as suas nuances, a complexidade de um aroma que é floral, sedoso, animálico, seco, incensado e amendoado, tudo ao mesmo tempo em intensidades diferentes. A primeira impressão que eu tenho é a de um aroma floral branco abstrato, com nuances de heliotropo para conferir o tom amendoado, que harmoniza com o cheiro mais cru e defumado de um acorde de couro bem clássico. Esse é o ponto de tensão entre o aspecto masculino e feminino do perfume e o que o torna interessante. Conforme ele evolui é possível perceber uma leve terrosidade de iris entre as flores e um sutil uso de uma base animálica em pequenas quantidades para dar um ar mais sensual a composição.

Tanto Cuir Cannage como Feve Délicieuse dependem de um pouco de paciência para serem avaliados. Não são perfumes que revelam seu potencial completo numa breve experimentação no papel ou na loja. Isso é reflexo, na minha opinião, na execução muito bem feita da homenagem as famílias clássicas que eles representam. Além da adequação completa ao conceito, a execução em termos técnicos é acima da média, com perfumes que duram e exalam consideravelmente. Em um mercado onde não é incomum encontrar os clássicos em desaparecimento ou reformulação, há espaço para criações como essas, que devido a mudança nos gostos do consumidor deixaram de ser artigos mais comerciais e se tornaram itens luxuosos e caros.

English: Cuir Cannage and Feve Délicieuse seem to be part of a phenomenon that I have observed in perfumery recently, the return to the classic and already explored. This is certainly in line with the economic times and global uncertainty we live in - the perfume, as well as other businesses,  is a segment that reflects the behavior of society and interprets it in olfactory terms. In my personal point of view this is not necessarily bad when the exploration of the classic is made with harmony, attention to detail and alignment with the proposed concept. Therefore, under this assumption it is that I consider excellent the last 2 releases within the exclusive collection of Dior with each honoring different classical structures.

I have seen some resistance as the Feve Délicieuse and ask myself if this happened due just the most realistic reproduction of the tonka bean aroma. When you smell it personally, you realize that while the aroma is pleasant it can also tire the nose because the smell is a blend of vanilla, cherry, medicine and cut grass. All these nuances can be perceived in Feve Délicieuse, wrapped in a floral harmony that gives a more complex dimension to the fragrance than merely a verbatim reproduction of the bean. The first impression I had was the quotation of the classic Shalimar by an indirect route, Must de Cartier. This is probably due to the use of an abstract floral aura of Jasmine using the hedione and a base that complements the oriental sweetness of vanilla with a creamy musk. This is most noticeable after the opening once the smell of caramel, cherry and  the slightly medicinal nuance begin to soften and perfume gains a freesia and jasmine nuance while presenting the oriental base focused on musk and vanilla. There are interesting side details in Feve, like the subtle smell of leather and sandalwood that sometimes prevails and a amber centered benzoin accord which is more evident in the skin at the end of evolution.

Cuir Cannage is also a kind of homage to classic perfumery, but the segment of leather perfumes, dating back the origins of western perfumery as we know it, in which scents were used to mask the smell of animal treated leather used to make gloves and other personal objects. Cuir Cannage is inspired by the smell of the inside of a purse, and certainly this is a bag that carried classics like Knize Ten and Tabac Blond. What delights me most here are the nuances, the complexity of a scent that is floral, silky, animalic, dry, incensed and almond all at the same time at different intensities. The first impression I have is that of a white abstract floral aroma, with hints of heliotrope to give the almond tone, which harmonizes with the most raw and smoked smell of a good classic leather accord. That's the point of tension between the male and female aspect of perfume, making it interesting. As it evolves you can see a light earthy iris among the flowers and a subtle use of a animalic base in small quantities to give a sexier aura to the composition.

Both Cuir Cannage as Feve Délicieuse rely on a bit of patience to be evaluated. Those are perfumes that don't reveal their full potential in a brief trial on paper or store. This is a reflect, in my opinion, of the  very well made execution of the tribute to the classic families that they represent. In addition to the full adaptation to the concept,  technically they are above average, with scents that last and exude considerably. In a market where it is not uncommon to find the classics disappearing or being reformulated, there is room for creations like these, that due to changes in consumer tastes are no longer more commercial items and became luxurious and expensive ones.

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