Pesquisar este blog

7 de ago de 2015

Balenciaga La Fuit des Heures Resenha


Português: Na minha jornada recente de aprendizado amador para aprender a criar perfumes, as poucas fórmulas de grandes clássicos que eu encontrei me revelaram algo surpreendente, um uso bem mais consciente, mesmo nos casos mais luxuosos, dos preciosos e caros materiais naturais, em especial os absolutos de flores. E isso me gerou uma pergunta, que também ressoou na minha cabeça ao testar Le Fuit des Heures na pele: o que realmente diferencia os clássicos vintage das criações modernas?

Certamente a queda nos preços das fórmulas e a intersecção crescente ao longo dos anos entre o aroma de produtos funcionais e perfumes feitos para serem luxuosos tem um papel importante, mas não somente isso. O perfume sofreu uma mudança importante dentro dos negócios, deixando de ser um produto que reflete o luxo dos valores da marca e que, por isso, tem espaço para ostentar uma riqueza. Ao deixar esse papel, ele assumiu um pilar de lucros e passou a ser pressionado comercialmente como um produto que não precisa vender em sua essência os valores da marca mas que precisa trazer uma parte importante da receita da mesma.

Infelizmente, quem perdeu com isso foi o próprio consumidor pois, como o próprio nome dessa criação diz, a perfumaria é uma arte fugaz.O aroma de um perfume não se transmite por imagens e mesmo que seja possível resgatar parte de sua mágica em palavras, as emoções, memórias e texturas perdem parte do seu colorido e precisão quando se passa para esse meio. Além disso, não há uma preocupação profunda em transmitir a história do passado e utilizá-la para servir de inspiração para o presente.

Desenvolvido por Germaine Cellier para a renomada grife de alta-costura, Le Fuit des Heures certamente mostra o impacto que a Chanel Parfums teve em seus concorrentes com suas sofisticadas criações de flores, aldeídos e bases amadeiradas e almiscaradas. Apesar das avaliações disponíveis na internet relacionarem Fuit des Heures ao clássico aldeídico que catapultou a Chanel no mundo da perfumaria, o belíssimo Chanel No 5, Fuit des Heures me faz relembrar do aroma luxuoso e da aura misteriosa e sofisticada do sândalo, flores e aldeídos do Bois des Iles. Ao mesmo tempo, é surpreendente que haja um eco bem grande para mim de uma estrutura floral oriental animálica que me remete a um perfume que seria criado no mínimo 30 anos depois. Pela falta de informação mais profunda, é difícil dizer se Fuit des Heures foi contemporâneo e profético ao mesmo tempo ou se Must de Cartier teve uma inspiração desconhecida do público em geral.

Uma coisa que me surpreendi aqui é a abstração no cheiro, algo que não é comum nas criações de Germaine Cellier, fã do uso de bases (combinações prontas de materiais naturais e sintéticos para reproduzir determinado cheiro) e de blocos densos de aromas em suas fórmulas. Talvez a inspiração no estilo Chanel a tenha levado a esse tipo de fórmula, algo que só é possível perceber em outro trabalho dela e ainda sim de uma forma bem menos evidente, o aroma de couro e violetas de Balmain Jolie Madame.

A Hora Fugaz faz um uso acertado dos aldeídos como peça importante de sua saída. Mesmo após muitos anos é possível perceber traços deles nos primeiros momentos na pele, conferindo um tom saponáceo que nas proporções corretas soa elegante e levemente cítrico. Há um leve toque herbal, algo que me parece utilizado para sugerir aroma de tuberosa e combinação com o ylang ao mesmo tempo que dá um cheiro sutilmente canforado a saída. O coração desse aroma é rico em flores (com ylang e jasmim predominando), cremosas, levemente frutadas, carnais, porém contidas ao mesmo tempo, misturadas a um leve toque terroso de iris e a doçura macia de violeta das iononas. A base mostra a elegância das nuances animálicas e levemente atalcadas dos nitro musks em combinação com algum outro tipo de musk mais cremoso, que complementa a aura amadeirada do sândalo utilizado.

Certamente Le Fuit des Heures cumpriu, após sua descontinuação, o que a sua propaganda sugere, tornando-se mais valioso do que ouro ao se tornar um perfume vintage raro, cobiçado e de preço elevado. Isso é apenas um reflexo da própria aura de luxo que se perdeu com o tempo na perfumaria, ainda que essa seja recuperada nos segmentos mais caros e de nicho do setor atualmente. No final das contas, a fugacidade de um bom aroma tem um alto preço tanto para a indústria como para o consumidor.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com relação a postagem? Escreva aqui
Comments related to the post? Write them here