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25 de jul de 2015

Cartier L'Heure Perdue Fragrance Review


Português (scroll down for english version):
 a Cartier e sua perfumista Mathilde Laurent certamente apostam na contramão do mercado de luxo com L'Heure Perdue, a décima primeira hora da excelente coleção exclusiva da marca. Primeiramente, pelo nome em si, a hora perdida, que apesar de poético possui um certo ar melancólico. Segundo, pela divulgação quase nula de notas, que tem o objetivo de influenciar o mínimo possível o consumidor final - o que acaba sendo bom e ruim ao mesmo tempo. E por último, a franqueza de este ser um perfume de luxo 100% sintético, segundo a marca, "deve tudo a ciência ao se passar por natural quando de fato é façanha da alquimia". De certa forma, é uma alfinetada da grife aos concorrentes, que inventam em suas pirâmides olfativas exuberantes materiais caros que na prática eles não usam.

Não se engane em pensar que L'Heure Perdue é um perfume barato e menos luxuoso por ser sintético e divulgar como principal componente a vanilina, a molécula responsável por criar o cheiro de baunilha a qual estamos acostumados. Apesar dela existir na fava de baunilha, ela é responsável por uma boa parte do cheiro desta, entretanto outros aromaquímicos contribuem para a riqueza e sensualidade da fava. Da mesma forma acontece em L'Heure Perdue, que não é meramente um perfume cremoso e açúcarado de baunilha, mas sim um perfume de nuances ambaradas, almiscaradas e incensadas, algo que me faz pensar em uma textura olfativa similar a da seda ou a de algum tecido caro e macio.

Por algum motivo, L'Heure Perdue me faz pensar instantaneamente em uma das obras-primas da perfumista, criada enquanto ela ainda trabalhava para Guerlain. L'Heure Perdue me parece ligado a seu maravilhoso Guet Apens, entretanto como uma interpretação mais minimalista e homogênea de seu cheiro. O perfume possui uma configuração mais linear, com uma base que o acompanha da saída ao fim,mas ao mesmo tempo tem uma dinâmica de evolução bem interessante. Na saída, um aroma aldeídico diferente, algo levemente salgado e marinho sem conotações oceânicas. O aroma doce e cremoso da baunilha se mistura a ele, mas ela nunca está sozinha, de forma que a criação não fica com um cheiro exatamente gourmand na pele. Ela parece acompanhada, num primeiro momento, de um musk caro, macio, de discretas nuances animálicas. Há algo amendoado também, que complementa a aura abstrata. Esta aura evolui num último momento para um contorno ambarado, incensado e de nuances levemente amadeiradas.

L'Heure Perdue poderia facilmente passar por diversos materiais nobres se a grife assim quisesse. Não há absolutamente nada em seu cheiro que parece funcional ou muito comercial. Eu diria que em vez de um triunfo da alquimia, é certamente um triunfo da alquimista que o criou, capaz de extrair um luxo sedoso que torna irrelevante para mim a origem dos materiais que o compõe.

English:

Cartier and its perfumer Mathilde Laurent are certainly betting againts the luxury market with L'Heure  Perdue, the eleventh hour of the great exclusive collection of the brand. First, the name itself, the lost time, which although irs' poetic has a certain melancholy air. Second, by almost nil notes described, which aims to influence as little as possible the final consumer - which turns out to be good and bad at the same time. And finally, the directness of this being a luxury perfume 100% synthetic , according to the brand, "owes everything to science to pose as natural when in fact it's feat of alchemy." In a way, it's a pinprick of brand competitors, who invent in their olfactory pyramids exuberant expensive materials which in practice they do not use.

Do not be fooled into thinking that L'Heure Perdue is a cheaper and less luxurious scent to be synthetic and spread as its major component vanillin, the molecule responsible for creating the smell of vanilla which we are accustomed. Although it exists in the vanilla bean and it is responsible for much of the smell of this, however other aromachemicals contribute to the richness and sensuality of the pod. Similarly happens in L'Heure Perdue, who is not merely a creamy and sweet scent of vanilla, but a perfume of ambery, musky and incense nuances, something that makes me think of a similar olfactory texture to silk or of some expensive and soft tissue.

For some reason, L'Heure Perdue makes me think instantly in one of the masterpieces of perfumer, created while she still worked for Guerlain. L'Heure Perdue seems connected to her wonderful Guet Apens, however as a more minimalist and homogeneous interpretation of its smell. The scent has a more linear configuration, with a base that accompanies it through the opening until the drydown, but at the same time has a dynamic and interesting development. On the opening there is a different aldehydic aroma, something slightly salty and without ocean marine connotations. The sweet and creamy scent of vanilla mingles with it, but it's is never alone, so that the creation does not exactly has a gourmand scent on the skin. It seems accompanied, at first, by an expensive soft musk which has subtle animalic nuances. There is something almond too complementing the abstract aura. This aura evolves in a last time for a amber colored contour, incensed and slightly woody nuances.


L'Heure Perdue could easily pass for several noble materials if the designer wished it. There is absolutely nothing in its smell that seems functional or too commercial. I would say that rather than a triumph of alchemy, it is certainly an triumph of the alchimist that created it, able to extract a silky luxury that makes it irrelevant to me the origin of the materials that compose it.