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17 de mai de 2015

Bruno Fazzolari Au Dela Fragrance Review



Português (scroll down for english version):

Há alguns perfumes que encantam a gente pelo conforto de seu cheiro. Outros, parece que nos oferecem um estranho e fascinante universo, as vezes mais harmônico, outras vezes ruidoso e demandando uma certa paciência para ser apreciado. E há outros, como Au Delà, que parecem a síntese do luxo, beleza e sofisticação.
Acho interessante que Au Delà seja totalmente diferente do Lampblack em sua inspiração - enquanto um me parece mais primitivo e conceitual, o outro é mais acessível, com uma forma definida. Porém, Au Delà não é menos que Lampblack, por mais clichê que isso possa parecer é um perfume que me faz sentir rico e com todo o bom gosto possível que poderia vir junto (e nem sempre vem) quando dinheiro deixa de ser um limitante.
Há algo em Au Delà em seu aroma e pintura que me fazem pensar no movimento artístico Art Noveau do início do século XIX. Talvez seja a união entre o aspecto fino da arte e um cuidado com seu lado mais prático e decorativo, trazendo vida a essa parte mais poética porém cotidiana de nossas vidas, o ato de se perfumar. Au Delà é como se fosse uma representação em Art Noveau de toda a beleza, harmonia e equilíbrio possível de se atingir com um perfume de flor de laranjeira.
O artista combina aqui o absoluto de neroli egípcio com o absoluto de flor de laranjeira, o que dá ao perfume duas visões diferentes da flor (já que os dois são produzidos por técnicas diferentes de extração, que geram perfis aromáticos diferentes). É interessante para mim que esse neróli/flor de laranjeira tenha conotações levemente indólicas, um aroma cítrico doce e harmônico e um lado verde, algo que me remete em partes ao cheiro de gálbanum. Há algo nessa flor de laranjeira que também me remete a um jasmim bem chique, e essas nuances de jasmim e gálbanum em vários momentos me fazem pensar em Au Delà como uma versão mais cara, harmônica e menos difícil de apreciar do clássico Must de Cartier, Como se o jasmim tivesse sido substituído pela flor de laranjeira, rica em nuances, o aroma amargo do gálbano fosse apenas sugerido talvez pela própria flor da laranjeira com o coriandro.
A Base de Au Delà também me aponta na direção do Must de Cartier, porém em uma versão menos densa, sem a saturação gourmand. A harmonia e leveza é uma palavra chave aqui, de forma que seu caráter fluído e sedoso é mantido pelo que me parece uma combinação de musks com toques de baunilha e um pouco de musgo de carvalho. Nesse último momento você acha que ele se foi, mas com o calor da pele é possível perceber sua beleza discreta.
Não há exatamente nada novo em Au Dela, mas é engraçado como a busca constante pela redução dos custos no processo de produção de um perfume faz com que uma criação assim soe tão distinta. Muitos se preocupam em produzir idéias estranhas, diferentes, mas muitas vezes há um buraco para criações assim, que prezam pela riqueza e beleza daquilo que já conhecemos e gostamos.

English:
There are some perfumes that enchant us with the comfort of their smell. Others seemss to offer us a strange and fascinating universe, sometimes more harmonious, sometimes noisy and demanding some patience to be appreciated. And there are others, such as Au Delà, which appear to be the synthesis of luxury, beauty and sophistication.
I find it interesting that Au Delà is totally different from lampblack in its inspiration - while one seems more primitive and conceptual, the other is more reachable with a definite shape. However, Au Delà is no less than lampblack, as cliché as it may seem is a perfume that makes me feel rich, with all the exquisite taste possibilites that could come together (and not always comes) when money is no longer a limiting.
There is something in Au Delà in its aroma and paint that make me think of the artistic movement Art Nouveau of the early nineteenth century. Maybe it's the union between fine art and an a careful aspect with its most practical and decorative side, bringing life to this most poetic part but everyday of our lives, the act of perfuming. Au Delà is like a representation of Art Nouveau with all the beauty, harmony and balance that can be achieved with an orange blossom scent.
The artist here combines the Egyptian neroli with the absolute of orange blossom, which gives the scent two different views of the flower (as both are produced by different techniques of extraction, which generate different aromatic profiles). It is interesting to me that this neroli / orange blossom has slightly indolic connotations, a sweet and harmonious citrus aroma and a green part, something that brings me into aspects of the galbanum. There is something in that orange blossom which also brings me to a very chic Jasmine, and these nuances of jasmine and galbanum at various times make me think of Au Delà as a more expensive version, harmonious and less difficult to appreciate of the classic Must de Cartier, as if Jasmine had been reduce to give space to orange blossom, rich in nuances, with also the bitter scent of galbanum only suggested, perhaps by the orange flower with the coriander.
The Au Delà Base also points me in the direction of Must de Cartier, but in a less dense version without the gourmand saturation. The harmony and lightness is a key word here, so that its fluid, silky character is maintained by what seems to me a combination of musks with hints of vanilla and some oak moss. In this last moment you think the scent has gone, but when the skin warms up a little you can see its understated beauty.
There is exactly nothing new in Au Dela, but it's funny how the constant search for cost reduction in the perfume production process causes a creation like this to sound so distinctive. Many worry in producing strange ideas, different, but often there is a hole for creations that value the richness and beauty of what we already know and love.