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2 de mai de 2011

Nombre Noir - Shiseido/Serge Lutens Resenha/Review


Notas: Aldeídos, Coriandro, Bergamota, Pau-Rosa, Manjerona, Rosa, Gerânio, Orris, Jasmim, Cravo, Ylang-Ylang, Lírio do Vale, Sândalo, Vetiver, Mel, Ambar, Musk, Benjoim e Fava Tonka

Apesar de muitos perfumes serem notáveis o suficiente para encherem livros e mais livros ao longo da história da humanidade pela inovação que tais representaram, pelas estruturas que eles criaram e que foram copiadas a exaustão por grifes e perfumistas, poucos perfumes atingem o status mítico,  um status que parece exigir uma combinação de arte, história e a criação de um mito ao redor de uma determinada fragrância, tal criado por aqueles que, fascinados pelo seu cheiro e incapazes de esquecê-lo, acabam perpetuando-o em honrosas e animadas palavras. Nombre Noir, um belíssimo perfume da década de 80, atingiu esse status nas mãos do renomado químico e crítico de perfumes Luca Turin, que sempre elogiou-o como um dos 5 melhores perfumes já criados entre todos os tempos, escrevendo maravilhas sobre tal fragrância no seu livro Imperador do Olfato e levando fanáticos por perfumes e apaixonados por fragrâncias a cobiçá-lo intensamento, elevando assim radicalmente o preço dessa raridade com o passar do tempo. Nombre Noir talvez decepcione a alguns, exatamente como acontece com a maioria dos perfumes míticos adorados por poucos, mas mesmo aqueles que não caem em seus encantos não podem negar a qualidade, profundidade e complexidade desse trabalho artístico que marcou o ínicio da direção artística de Serge Lutens na perfumaria da Shiseido.

Nombre Noire é um dos trabalhos mais conservadores de Serge Lutens, e ainda sim é um dos seus trabalhos mais complexos, que apresenta uma estrutura onde cada camada parece ter sido cuidadosamente concebida para passar a sua idéia central, a de um floral clássico transformado por uma negra saturação de rosas cujo o uso parece não ter precedentes. A melodia olfativa básica de Nombre Noire é conhecida de clássicos perfumes como Lanvin My Sin e Madame Rochas, que aliavam saídas cintilantes e aldeídicas a um generoso toque terroso de orris, a um bouquet floral complexo no coração e a uma base ambarada, de nuances amadeiradas e um adocicado comportado que tem o objetivo apenas de amarrar o final da composição sem prevalecer sobre ela. Por mais que Nombre Noire, especialmente na versão EDP, toque em todos esses pontos, como uma colônia concebida artisticamente por lutens para atingir ao objetivo da Shiseido de conquistar o mercado ocidental, o que faz de Nombre Noire notável, desejável, intenso e inesquecível é uma característica que se tornaria marcante a partir dele em quase todos os trabalhos de lutens, a saturação em uma nota específica que se estende por boa parte da composição.


Nombre Noire parece um estudo de contrastes sobre um clássico feminino elevado ao patamar mais negro possível. Lutens parece brincar com as luzes desse floral aldeídico amadeirado ao colocar em seu centro um aroma de rosas licorosas e amadeiradas, rosas tais que passam a sensação de terem amadurecido nesse complexo caldo olfativo até atingirem o máximo possível de um odor negro, sedutor e marcante.Na versão EDP, essas rosas parecem marcadas por uma saída aldeídica e cítrica, mergulhadas em um aroma clássico de cravo, orris e ylang-ylang e suportadas por uma base que a princípio revela contornos amadeirados e musgosos para aos poucos se transformar em um ambarado adocicado que usa um transparente mel para deixar seus últimos sussuros. Já na versão pure parfum, Nombre Noire amplifica suas notas de base e essas dão a rosa um contorno ainda mais dark e sedutor. Nombre Noire em pure parfum se assemelha a uma visão de um vinho da melhor qualidade feito com raras rosas, sedosas e picantes, que amadureceram em barris de vetiver e musgo e se vestiram seu aroma amadeirado e musgoso, como se esse fosse parte de sua complexidade floral. No pure parfum, ylang-ylang e o jasmim ressaltam o aspecto carnal desse elixir de negras rosas, ao passo que o gerânio acaba contribuindo de forma mais evidente que na edp para a composição do aroma floral e denso de rosas.


É possível entender a paixão que Nombre Noire cause em Luca Turin e em vários outros apaixonados por perfumes. Lutens aqui utiliza de seu conhecimento artístico e fotográfico para criar um clássico que merece um lugar de respeito entre os clássicos, mas que ainda sim se destaca entre eles por aliar tradição a uma saturação negra que de tão complexa dificilmente é entendida da primeira vez. E exatamente essa saturação em um aspecto que foi o responsável pela glória e pelo fim de Nombre Noire. A instabilidade de seu material olfativo responsável pelo cheiro marcante de rosas, aliado a alto custo na época para a produção do refinado frasco octavado tornou impossível a Shiseido mantê-lo em linha, fazendo com que ele sumisse das prateleiras com a mesma velocidade e intensidade que conquistou fãs. Nombre Noire, como a maioria dos mitos olfativos, teve seu apogeu de glória e, nesse caso, um rápido e infeliz declínio. A sorte é que Nombre Noire era apenas o início de Serge Lutens na perfumaria artística, um aperitivo olfativo de seu potencial para criar composições que nos anos 90 marcariam o crescimento de um novo tipo de perfumaria, mais artística e conceitual, a perfumaria de nicho.

2 comentários:

Átila Rodolfo disse...

Simplesmente belo. Mais uma pra minha wish-sniff!!!!! Apesar de não conseguir portar quase nenhum perfume floral, me interesso (e, por vezes) abro exceções para os florais obscuros, dark e os que permitem uma sensação sinestésica da cor preta. O negro, entendo eu, pode mesmo ser da ideia de rosas masceradas, quase que um licor de rosas. Seriam essas rosas negras? Como a variedade floral "Príncipe da noite"? Ou apenas um clássico bouquet de rosas vermelhas sem-vergonhas??? Consigo sentir esse "floral negro" no também clássico (mas ainda em linha) Poison - Dior e no Nu - YSL (na versão EDP, já que na EDT o floral é branco). Outra interpretação dark (ainda que diáfana) de rosas é o Voleur des Roses - L´artisan, que junto da base amadeirada de patchouli confere um aroma chuvoso, saudoso, preto em branco, quase em sépia... Ah Rick, como viajo em suas resenhas ... simplesmente continue assim!!!

Rick disse...

Caro amigo, creio que vc gostaria do aspecto mais negro do nombre noire, mas tem o lado mais clássico também que o estrutura e o envolve. Acho que o interessante é essa junção feita de uma forma cuidadosa. A impressão que ele passa é realmente a de um licor de rosas. Não conheço essa variedade que vc cita, infelizmente :( Poison me veio a mente enquanto eu escrevia tbm, mas seria um floral negro diferente. Preciso sentir o Voleur de Roses que vc citou, tenho certeza que deve ser maravilhoso.
Obrigado pela participação :)
Abraços do seu amigo!

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