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4 de mai de 2011

Miel de Bois - Serge Lutens Resenha/Review


Notas:
Mel Branco, Carvalho, Madeira Guaiac, Cêra de Abelha, Iris

A complexidade da perfumaria que Serge Lutens dirige criativamente é fascinante e difícil de entender em alguns casos. Alguns de seus perfumes são como estudos em um determinado tema olfativo, que procura capturar, intensificar, distorcer e por vezes transformar todos os aspectos de uma determinada nota, retirando-a de sua zona de conforto para o olfato. E isso faz de alguns de seus perfumes existentes estranhas criaturas, que assustam a princípio mas que valem a pena serem estudadas com o tempo, devido a possibilidade de exploração que as vezes é difícil de se encontrar. Miel de Bois é uma dessas estranhas criaturas que permite a experiência do aroma do mel de uma forma ao mesmo hiper-realista e abstrata de uma forma que nenhum outro centralizado em mel permite.


Miel de Bois é estranho a um primeiro contato, é uma criatura que se vale do desconforto como seu principal tema de evolução. E o desconforto aqui é causado por uma alta dose de mel e de madeiras, passando uma primeira impressão que para alguns remete a um intenso cheiro de mel e para outros, infelizmente, a cheiro de urina e madeira seca. O aspecto da urina persiste nas primeiras vezes que se aplica Miel de Bois na pele, o que torna um desafio para aqueles que percebem essa característica voltar a usá-lo mais vezes. Mas, como um bom desafio, Miel de Bois revela sua complexidade e nuances somente com o tempo, conforme o olfato se acostuma com essa alta dosagem de mel;  é possível comparar essa abordagem a um quadro complexo que os olhos e se cansam devido aos pequenos detalhes, tonalidades da mesma cor, e luminosidades aplicadas, e que esses mesmos olhos com o tempo se acostumam e percebem o que a princípio era bloqueado.

O Mel aqui é basicamente apresentado sobre três planos, que não possuem nenhuma sequência para aparecimento na pele. Em alguns momentos o aroma mais floral do mel prevalece, remetendo a saturação que algumas flores apresentam quando terminaram de desabrochar e estão em seu apogeu olfativo.Há um aspecto animálico e de pólen também, produzido pelo mel em conjunto com uma iris coadjuvante e que só é percebida mais claramente depois de horas na pele. Ao mesmo tempo, miel du bois tem o lado mais amadeirado e seco da nota, que é enfatizado aqui pela madeira de guaiac, pelo carvalho e pela cêra de abelha. O aroma doce de mel também é possível de ser notado em miel de bois, especialmente pelas pessoas que percebem o seu cheiro no ar, que remete a bala de mel em alguns momentos.

Serge Lutens sabiamente moveu tal criação de sua linha de exportação para a linha disponível somente em Paris, pois Miel de Bois é um perfume de nicho conceitual e difícil de ser explorado comercialmente, exatamente por ser atraente logo no primeiro uso/prova somente para poucos e de exigir um convívio e persistência daqueles que, como eu, da primeira vez o odiaram. Miel de Bois é uma experiência didática e artística, um estudo que utiliza outras notas para catpurar todos os aspectos que envolvem o mel, criando também uma abstração do cheiro do mel ao lembrar essa nota sem que, em alguns momentos, ele nos leve a visualizar o mel. O segredo para entender Miel é paciência e persistência, pois só dessa forma é possível extrair a beleza que ele tem escondida atrás da máscara assustadora que ele carrega.

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