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6 de mai de 2011

Jeux de Peau - Serge Lutens Resenha/Review



Notas: Osmanthus, damasco, alcaçuz, leite, sândalo, sempre-viva

Além do universo árabe, Lutens parece frequentemente tirar inspiração artística para suas composições da cozinha. Seu objetivo não é criar perfumes que pareçam emular ricas e calóricas sobremesas para saciar sem engordar. Pelo contrário, sua abordagem nesse campo captura suas memórias dos cheiros que o fascinam e transporta suas combinações para criar uma perspectiva mais ampla e complexa, mutante, panorâmica do ambiente onde estas notas culinárias são empregadas. Em Jeux de Peau Lutens comanda criativamente o perfumista num tema pouco explorado na perfumaria gourmand, o aroma amanteigado de uma torrada.


A falta de literalismo nessa interpretação desse jogo de pele, como o nome implica, é o que mais fascina em Jeux de Peau. Não espere dele uma reprodução literal de um aroma crocante e seco de pão aliado a cremosidade amanteigada, ligeiramente gordurosa, adocicada e salgada da manteiga. Jeux de Peau captura essa idéia de contrastes entre cremoso/amanteigado e seco inerentes a panificação utilizando como peças principais o sândalo, osmanthus e alcaçuz. O alcaçuz é predominante do começo ao fim da criação, e é de certa forma similar ao encontrado em Mechant Loup, criação da L'Artisan que o explora combinação as notas de mel e amêndoas.  Enquanto mais doce e amargo em Mechant Loup, em Jeux de Peau sua nuance amanteigada é ressaltada acentuada por um uso secundário do exótico floral da sempre-viva, conferindo um suporte caramélico seco a nota. A flor de osmanthus e o sândalo criam um amadeirado cremoso e um floral frutal de nuances lactônicas que contrastam com o lado simultaneamento seco e doce do alcaçuz. O damasco é o confeito frutal sofisticado, a geléia fina que permeia o lactônico floral dessa torrada olfativa. Jeux de Peau possui uma típica evolução dos perfumes mutantes da grife, onde após o tema inicial, o alcaçuz, há uma profusão de aromas que não seguem uma sequência linear e são como uma visão em 360 graus do cheiro.

Jeux de Peau é uma forma culinária abstrata da mente um indivíduo que parece reproduzir apenas pela lembrança o aspectos de um cheiro que o fascina, focando no mais marcante deles, nesse caso a parte amanteigada, expressa pelo tom cremoso do sândalo, lácteo floral do osmanthus e seco do alcaçuz. O que decepciona de certa forma nele é a ausência da intensidade que suas criações mais antigas costumavam ter. Essa torrada amanteigada parece ter sido consumida a algum tempo já e o que resta dela é o seu cheiro no ambiente. Jeux de Peau progressivamente some na pele, e é necessário borrifá-lo depois de umas 6 horas para notar de forma mais evidente seu cheiro. De certa forma, o jogo final que o nome implica é a corrida por percebê-lo antes que não seja mais possível captá-lo.

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