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16 de nov de 2010

Memoir Man - Amouage


Pirâmide olfativa:

Saída: Manjericão, absinto, menta

Coração: Lavanda, Incenso, Rosa

Fundo: Sândalo, Guaiac Wood, Musgo de Carvalho, Ambar, Baunilha, Tabaco, Couro


Impressões pessoais:

As vezes, o maior perigo para o sucesso completo de uma marca é ela mesma. Afinal, manter-se criativa, ousada, diferente da concorrência não é uma tarefa fácil, e todos esperam os momentos onde ela irá falhar, produzindo algo que  não é completamente satisfatório. Parte da culpa no momento da falha pode ser exatamente da própria grife, ao confiar em seu sucesso, em sua criatividade e excentrismo.

A grife árabe Amouage exemplifica esse cenário. Criada para exaltar a intensidade e exotismo do legado perfumístico de Oman, possui grandes ambições ao querer transmití-lo para um público ocidental e competindo com outras marcas que já estão a mais tempo no mercado. É possível notar o quão empenhados estão em criar fragrâncias memoráveis, que fogem de clichês, como os florais masculinos Gold e Lyric, e que também dêem um tratamento mais ocidental ao especiado, incensado, intenso dos perfumes árabes, onde um exemplo bem sucedido de tal abordagem é Jubilation XXV. Entretanto, com Memoir Man Amouage acaba se traindo, confiando demais numa proposta forte, na qualidade das notas, mas se esquecendo de garantir uma execução marcante a altura dos dois.

É a maior falha de Amouage Memoir Man, que foi anteriormente demonstrada em seu Reflection Man e recentemente em seu Opus II, um dos mais fracos de toda linha. São momentos que se aproximam demais da utilização de caminhos olfativos explorados previamente por grifes comerciais, uma abordagem perigosa ao  se considerar a diferença exorbitante de preço entre a perfumaria da amouage é o que é vendido nas lojas comerciais.

A idéia é forte e interessante: criar um perfume negro, inspirado na poética de Charles Baudelaire, em um Cisne Negro, e apostar numa conexão, numa memória olfativa entre os lançamentos masculinos e femininos, onde um reflete o outro. Acontece que, transformado em um aroma, Memoir man remete mais ao patinho feio que o cisne perto da criação feminina, sendo o lado fraco do duo olfativo, ao invés de reforçar o que é feito no perfume feminino traduzindo para um aroma que agrade mais ao público masculino.

Parece que há um certo receio em ir a fundo na idéia proposta, e isso proporciona um amadeirado com nuances de tabaco e incenso na base, e notas verdes e amargas na saída. Porém, a combinação deles parece conhecida e os poucos momentos interessantes não são trabalhados a fundo. Há uma bela saída verde, amarga, intensa, que utiliza sem dó o  amargo, herbal do absinto, combinado a uma menta sem nenhuma referência a pasta de dente ou chiclete, capturando assim um aroma que parece pulsar a seiva verde da menta com a nuance amarga do absinto.

A partir daí, entretanto, falta coragem para manter os momentos marcantes iniciais; o incenso aparece, mas é suave demais para passar qualquer conotação negra, misteriosa. Em seu lugar, quem brilha desnecessariamente é a lavanda, criando uma memória genérica de um perfume oitentista. A lavanda parece utilizar aqui o seu lado menos adocicado e mais medicinal, mas há um lado de seu aroma que remete o perfume por uns instantes ao aroma de pastilhas odorizadoras de carro, o que mata o perfume por uma parte do tempo.

A criação progride, após a desagradável aparição da lavanda, para uma base amadeirada seca, pontuada por tabacco e ambar, onde o amadeirado leve do guaiac wood se destaca. O sandalo confere um aroma cremoso, amadeirado, que somente aparece após um bom tempo na pele e que é bem sutil. A base remete perigosamente a perfumes que tentam capturar um ar retrô utilizando tabaco e madeiras, como Byredo Baudelaire, Jil Sander Scent 79 Man e o perfume criado para loja de nicho alemã, First in Fragrance.

As limitações no projeto de Memoir Man são seus maiores inimigos no que poderia ser um aroma rico, intenseo, memorável. No desejo de agradar o público, a idéia não parece forte o suficiente para evitar comparações e garantir-se por si mesma. A referência a um aromatizador de ambientes é desastrosa, a colocação de notas na pirâmide olfativa, como rosa, baunilha ou musgo de carvalho, que não aparecem em nenhum momento do perfume é estranha. Mais estranho ainda é a classificação como um fougere couro de uma criação onde não há couro em momento nenhum. Esse Cisne Negro ainda não é consciente de toda sua beleza, se é que ela se desenvolveu totalmente. O que poderia ser um belo aroma verde, amargo, mentolado e incensado acaba estragado por uma base fougere atabacada genérica. Qualidade não consegue transformar idéias já exploradas se não há ousadia para executar um conceito em sua totalidade.

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