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12 de nov de 2010

Cuir d'Iris - Parfumerie Generale





Notas:
Vetiver, Iris, Cardamomo, Couro, Uvas, Chocolate, Incenso, Madeiras, Ambar




Impressões pessoais:

Pierre Guillaume, perfumista e dono da grife de nicho Parfumerie Generale, possui duas paixões que são evidentes na sua coleção: o aroma gourmand e a paixão pelos perfumes de couro. Os aromas gourmands fogem da idéia tradicional de aromas que apenas dão água na boca, próximos a aromas culinários, e se aproximam de interpretações mais complexas do que deve ser um cheiro gourmand dentro de um perfume, de como ele deve se misturar as outras notas, dando sua cremosidade, doçura, aroma açúcarado, como parte de um todo maduro, complexo, intrigante. Já sua abordagem em relação ao couro é simples, colocando-o sempre como seu herói (ou sua heroína), a ser exaltado, adorado pelas outras notas que o cercam.

Cuir d'Iris é uma união das duas características acima, o que resulta em um agradável couro, seco, um pouco gótico, mas ao mesmo tempo cremoso, confortável, que dá água na boca sem embrulhar o estômago. É fiel aos aromas tradicionais de perfumes de couro, que utilizam a nota de uma certa forma provocativa, dominante, mas oferece uma textura mais moderna, o que resulta em um mix de conceitos antigos e novos executados com coesão.

O que primeiro chama atenção quando aplicado na pele é a diferença na estrutura olfativa. A nota de couro costuma aparecer, na maioria das composições, de uma forma progressiva, se manifestando na saída, e intensificando seu tom aos poucos, conforme o tempo passa e a difusão dos acorde se aproxima do que é considerado a base do perfume. Aqui, ocorre exatamente o contrário: Cuir d'Iris coloca  o couro na saída, de uma forma seca, intensa, dark. Esse é o couro de uma jaqueta de couro antiga, bem conservada, que preservou seu aroma animálico tratado com o passar do tempo.

Porém, esse não é um couro agressivo, que se torna pungente em especiarias ou em um ambar seco e animálico. É um couro que se transforma em uma camurça elegante, perfumada com um algo frutado, ligeiramente cítrico. O momento frutado e cítrico o aproxima, de certa forma, ao Bois Rouge da grife Tom Ford, porém com uma execução que tende mais para o aroma do couro-camurça complementado pelo toque cítrico, diferente do Bois Rouge,  que explora mais o aroma camurça-couro complementado da mesma forma.

As semelhanças param aí, pois Cuir d'Iris revela uma Iris de um atalcado terroso. A nota na composição é um pouco difícil de ser detectada, pois seu aroma parece híbrido, explorando o lado atalcado, mas de uma forma negra, mais próxima do cheiro terroso, mineral, que a raiz de Iris costuma ter. Esse é um segundo momento dark e intenso do perfume, e uma combinação perfeita de couro e iris predomina como um acorde frontal, no que em geral seria notado mais para frente na evolução.

E o que se destaca depois, é um gourmand comfortável. O uso do chocolate aqui quase sugere o aroma do patchouli, por ter um aroma gourmand seco, amargo, ligeiramente amadeirado. O cardamomo confere um toque especiado cremoso, que quase reproduz o aroma lactônico frutal do coco, mas sem a parte frutal. O aroma de couro e coco costuma ser explorado em algumas criações, mas aqui, as nuances de couro e coco parecem afastadas olfativamente, com o couro em evidência primeiramente, com um aroma mais suave no momento da iris, e mais discreto ainda quando complementado pelo coco e chocolate amargo.

O momento final talvez seja o menos memorável, mais ainda sim é coerente e de qualidade. O perfume não se dispersa em musks típicos de amaciante, ou em um ambar amadeirado genérico. A combinação de ambar, vetiver, incenso e madeiras é quente, esfumaçada, discretamente adocicada, finalizando um acorde feroz e intenso com uma voz que não chega a ser terna, mas que não grita também.

Ao se manter em sua zona de comforto, Pierre Guillaume consegue extrair da nota de couro uma agradável execução seca, animálica, porém gourmand, belamente estruturada. Essa jaqueta de couro pode ser feita de materiais vintage, mas o seu estilista optou claramente por uma forma modernista, entre a execução chocante e intimista.

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