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22 de out de 2010

Poivre 23 - Le Labo

Poivre rose © Photo François Gallouin


Notas:
Sândalo, Olíbano, patchouli, pimenta, baunilha, guaiac wood, estoraque

Impressões pessoais:

É interessante que para entender alguns perfumes não basta apenas sentí-los, decifrar seus acordes, tentar encaixá-lo dentro do estilo da grife.  Os perfumes, quando bem compostos, funcionam como obras de arte, onde o perfumista acaba, quando lhe é oferecido tal liberdade, conciliando o estilo da grife e da proposta pedida  com o seu próprio estilo. E mesmo entendendo uma composição, suas notas, o estilo do perfumista, a qualidade do que foi desenvolvido, ainda sim é possível não gostar dele, como se faltasse algum elemento no processo de aceitação do novo aroma.

É o caso do Poivre 23, da marca Le Labo. A composição, vendida exclusivamente em Londres, possui 23 notas olfativas, sendo a principal delas a pimenta. Entre as especiarias, é uma nota bem versátil, podendo ser utilizada em perfumes aquáticos, orientais, florais frutais, sendo que o tipo de pimenta é fundamental para passar a impressão desejada no perfume. Pimenta preta, por exemplo, costuma ter um aroma seco, que combina perfeitamente com aromas de incenso e resinas para criar uma aura introspectiva e misteriosa. Já o a pimenta rosa possui uma nuance mais delicada e adocicada que casa muito bem com aromas frutais e florais.

Poivre 23, na tentativa de captar de uma forma focalessa nota, combina com perfeição as duas pimentas citadas, tornando a nota que é, ao mesmo tempo seco, picante, incensado, e ligeiramento doce e frutado. A pimenta, apesar de presente, não é sufocante, e se mantém de forma suave durante toda a evolução, o que talvez passe a impressão para alguns de que o nome é incorreto e de que ele não possui pimenta.

Minha maior crítica a esse perfume, apesar de ele ser agradável, é exatamente a palidez da composição durante a evolução e a utilização da pimenta de uma forma não totalmente original. A saída de pimenta preta-rosa pode não ser comum em criações de mercado, mas já foi explorada por um perfume descontinuado lançado bem antes de Poivre 23. Criado pela grife Chopard, Madness utiliza de forma incisiva a pimenta que é presente e sutil em Poivre 23. É como se a perfumista tivesse partido do conceito picante, um pouco frutado, do Madness, e aparado as arestas florais e de algodão que essa composição possui. Entretanto, o que foi colocado no lugar não é adequado para uma criação exclusiva e cara como essa.

Na busca por uma resposta, finalmente comprendi que parte da culpa é do estilo da perfumista. Ao procurar por Nathalie Lorson, encontrei uma reportagem sobre ela feita para a revista online Osmoz. Nessa reportagem, ela é questionada quanto ao estilo pessoal de suas composições, e ela responde que seu estilo compreende a não repetição de temas utilizados anteriormente, a tentativa de se manter o máximo possível fiel a proposta do cliente e a predileção por aromas redondos, harmoniosos e sutis, por meio de formúlas curtas com o foco na qualidade dos materiais.

A partir desse ponto, a composição passou a fazer sentido. O foco é claro no aroma da pimenta durante toda a evolução, e é possível perceber a dificuldade em captar diferentes notas durante a evolução, que parece compacta e formada de duas fases: o aroma da pimenta na saída e sua progressão posterior para um aroma incensado, amadeirado, com nuances gourmands. Esse segundo momento, após a evolução, parece utilizar facetas do aroma amadeirado do vetiver, do calor amadeirado cremoso do sândalo e da baunilha, do amadeirado discreto e especiado do guaiac, do lado incensado do estoraque. Todos combinados para criar uma sensação de pele perfumada, delicadamente doce e incensada.


Fonte: Nathan Branch, todos os direitos reservados

Entretanto, entender o perfumista, a composição, o foco, não me leva a apreciar Poivre 23. A composição é sutil demais e compacta demais, um pouco simplória, apesar de redonda e agradável. Não é o que se espera de um perfume exclusivo, orientado para uma clientela mais exigente e em busca de uma composição artística. Num preço mais acessível e numa proposta menos exclusiva, Poivre 23 faz sentido. Fora disso, não há justificativa para o preço de 240 libras por 100ml.

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