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21 de ago de 2017

Papillon Perfumery Dryad - Fragrance Review



Português (click for english version):

Esperar pelos perfumes dessa marca artesanal e independente é praticamente um evento para mim, como esperar pelo lançamento do novo álbum de sua banda favorita. A marca que foi estabelecida e tem sido desenvolvida por Liz Moores personifica exatamente o que há de excitante na perfumaria artesanal independente: perfumes complexos, de alta qualidade e que você claramente percebe que não foram feitos com uma mentalidade de agradar a todos.
Estava ansioso para conhecer Dryad já que Salomé e Anubis entraram para minha lista dos melhores que eu testei recentemente e também pelos elogios universais a nova criação. Liz comenta que esse foi um projeto seu que ficou guardado por um tempo até que ela sentiu vontade de mexer novamente nele e finalizá-lo. E eu diria que seu feeling foi acertado, já que Dryad se encaixa bem na ressurgência dos perfumes florais verdes que tem acontecido.
Alguns comparativos tem sido feitos entre Dryad e o Chanel No 19 e enquanto eu consigo perceber as semelhanças, para mim é como se Dryad fizesse uma versão IMAX do acorde do No 19 enquanto cria sua identidade e aprofunda nos detalhes.
O Gálbano é uma estrela na composição, contribuindo de forma significativa com o seu cheiro verde, um pouco amargo e até mesmo terroso. É interessante que ele seja contrastado com a Cidra, já que cria uma nuance de capim cidreira de fundo que harmoniza e dá uma luz a composição que é ausente em outras criações verdes com gálbano.
Dryad explora de forma clara os aromas florais do Narcisso e do Jonquilho, empregando-os em seus contornos mais verdes para reforçar a ideia do perfume. É possível perceber uma nuance levemente animalica de fundo, se combinando com um aroma terroso, úmido e fofo e que contrasta com um aroma adocicado e um cheiro amadeirado de vetiver de altíssima qualidade.
Como eu disse, Dryad é uma experiência pessoal, e para mim ele é muito lindo. Eu acredito que é muito mais difícil explorar um aroma "familiar" como esse em sua plenitude e riqueza de detalhes do que desbravar territórios novos. Nessa criação, estamos diante de qualidade pura tanto do ponto de vista dos materiais como do ponto de vista do conceito em si. Resumindo: outra obra prima da casa.

English:
Waiting for the perfumes of this handmade and indie brand is practically an event for me, like waiting for the release of the new album of your favorite band. The brand that has been established and has been developed by Liz Moores epitomizes exactly what is exciting in independent handmade perfumery: complex perfumes, high quality and you clearly see that they were not made with a mindset to please everyone.
I was anxious to meet Dryad since Salome and Anubis entered my list of the best I've tested recently and also by the universal praise of the new creation. Liz comments that this was a project of her that was kept for a while until she felt like stirring it again and finalizing it. And I would say that her feeling was settled, since Dryad fits well in the resurgence of the green floral perfumes that is happening.
Some comparisons have been made between Dryad and Chanel No 19 and while I can see the similarities, to me it is as if Dryad made an IMAX version of the No. 19 accord whilte creating its identity and delving into the details.
Galbanum is a star in composition, contributing significantly to its green, somewhat bitter, and even earthy scent. It is interesting that it is contrasted with Cedrat, since it creates a nuance of background lemon grass that harmonizes and gives light to the composition that is absent in other green creations with galbanum.
Dryad clearly explores the floral aromas of Narcissus and Jonquilho, employing them in their greener contours to reinforce the idea of ​​perfume. It is possible to perceive a slightly animalistic background nuance, combining with a earthy, humid and mossy aroma and that contrasts with a sweet aroma and a woody scent of vetiver of the highest quality.
As I said, Dryad is a personal experience, and for me it is very beautiful. I believe it is much more difficult to explore a "familiar" scent like this in its fullness and richness of detail than to break new ground. In this creation, we are faced with pure quality both from the point of view of materials and from the point of view of the concept itself. In short: another masterpiece of the house.

Santi Burgas Palindrome I, Palindrome II - Fragrance Reviews


Português (click for english version):

A minha impressão é que a cada coleção que passa Santiago Burgas tem feito seu talento criativo na perfumaria florescer e tem saído da zona mais óbvia que boa parte das marcas de nicho começa enquanto cria empatia com o público e firma seu nome.

Na nova coleção, denominada de Palíndromes, o artista em parceria com o perfumista Rodrigo Flores-Roux criar perfumes que explorem esse conceito, que possam ser lidos olfativamente em qualquer direção. Mais que isso, o objetivo é explorar o aspecto místico e primordial dos palíndromos, principalmente no campo dos números.

Palíndrome I é um ode a um aspecto primordial da perfumaria, o incenso, e é uma aura protetora de resinas quentes e fumegantes que começa sua jornada com uma leve abertura cítrica. Depois disso, o perfume é um exercício de luxo em um acorde de ambar e resinas fumegantes, uma aura quente, adocicada e envolvente, temperada por algo que me leva a pensar em especiarias frescas talvez. O uso pesado de resinas aromáticas com a combinação de materiais ambarados mais modernos consegue injetar luminosidade a ideia e passar o conceito de um perfume a ser lido em mais de uma direção sem que ele pareça linear.

Já Palíndrome II é o meu favorito da marca como um todo e um que eu considero uma obra prima. A escolha do material que funciona como um fio condutor a ser lido bidirecionalmente é o patchouli, e estamos falando de um uso rico e multifacetado da nota. Tal patchouli é terroso, com toques gourmands mas ao mesmo tempo possui uma luminosidade e clareza que se obtem apenas com as extrações mais caras da nota ou com o uso de patchoulol puro. Palíndrome II veste tal patchouli em uma riqueza de um aroma de couro, cítricos e flores que me faz pensar em uma criação da perfumaria mais clássica em toda a sua beleza e riqueza. Isso é trazido para o presente com o uso inteligente de um toque gourmand da cana de açúcar na composição também por manter o patchouli entre o luminoso e o terroso. Belíssimo perfume e que representa perfeitamente a escuridão se transformando na luz.

English:

My impression is that every collection that passes Santiago Burgas Bou has made his creative talent in perfumery flourish and has come out of the most obvious zone that a good part of the niche brands begins while creating empathy with the public and solidifying their name.

In the new collection, called Palindromes, the artist in partnership with the perfumer Rodrigo Flores-Roux create perfumes that explore this concept, which can be read olfactory in any direction. More than that, the objective is to explore the mystical and primordial aspect of palindromes, especially in the field of numbers.

Palindrome I is an ode to a primal aspect of perfumery, incense, and is a protective aura of hot and smoking resins that begins its journey with a light citrus opening. After that, the scent is a luxurious exercise in an accord of amber and smoldering resins, a warm, sugary and engaging aura, tempered by something that leads me to think of fresh spices perhaps. The heavy use of aromatic resins with the combination of more modern amber materials can inject luminosity into the idea and pass the concept of a perfume to be read in more than one direction without it appearing flat.


Palyndrome II is my favorite from the brand as a whole and one that I consider a masterpiece. The choice of the material that works as a conductor wire to be read bidirectionally is patchouli, and we are talking about a rich and multifaceted use of the note. This patchouli is earthy, with gourmands touches but at the same time has a luminosity and clarity that is obtained only with the most expensive extractions of the note or with the use of pure patchoulol. Palyndrome II wears such a patchouli in a wealth of a scent of leather, citrus and flowers that makes me think of a creation of the most classic perfumery in all its beauty and richness. This is brought to the present with the clever use of a gourmand touch of sugar cane in the composition and also by keeping the patchouli between the luminous and the earthy. It is a beautiful perfume that perfectly represents the darkness morphing into the light.

Alexandre J Altesse Mysore - Short Fragrance Review


Português

Sabe quando você conhece alguém, olha para a pessoa e jura que já viu alguém parecido ou já conheceu aquela pessoa antes? Pois bem, tenho muito isso com perfumes, o que não me surpreende em um mercado que lança mais de 1000 por ano e reaproveita muito as fórmulas.
Pelo nome, imaginava talvez que Altesse Mysore poderia ser um ode ao sândalo indiano, infelizmente ele não é. Ele é um aroma entre o exótico e o usável e algo nele me faz pensar em algum dos Dior da La Collection Couturier (desconfio que seja o New Look 1947).
O que eu mais sinto nesse perfume são rosas azedinhas e temperadas pelo toque frutado seco da pimenta rosa. Elas são envoltas em uma aura levemente powdery, resinosa, quente e um pouco adocicada, onde para mim o benjoin se destaca. É um perfume chic, agradável, mas parece que falta algo, como se você olhasse a pessoa em questão e ficasse imaginando que os traços que se assemelham ficam melhor no outro.

English
You know when you meet someone, look at the person and swear that you have seen someone like him/her or have met that person before? Well, I have a lot of that with perfumes, which does not surprise me in a market that launches more than 1000 a year and reuses a lot the formulas.
By the name, I imagined perhaps that Altesse Mysore might be an ode to Indian sandalwood, unfortunately it is not. It is a scent between the exotic and the wearable and something in it makes me think of one of the Dior's La Collection Couturier (I suspect it's the New Look 1947).
What I most feel in this perfume are sour roses and spiced by the dry fruity touch of pink pepper. They are enveloped in a slightly powdery, resinous, warm and sweetened aura, where to me the benjoin stands out. It's a chic, nice scent, but it looks like it's missing something, as if you looked at the person in question and wondered if the traces that resemble the other person look better on the font of your comparative.

Comme Des Garçons DAPHNE - Fragrance Review

Português (click for english version):

Certamente a casa Comme des Garcons é uma espécie de referência para celebridades alternativas que gostariam de criar perfumes que fujam do lugar comum ao mesmo tempo que sejam usáveis e interessantes. Em 2009 a marca colaborou com o ícone fashion e socialite Daphne Guiness em sua fragrância, que ela mesma descreveu como um perfume que te transporta do dia-dia e te leva para o passado, uma criação misteriosa.
No geral não costumo mencionar essas afirmações pois elas tendem a ser ilusórias, mas aqui elas sintetizam perfeitamente o perfume. Daphne certamente conhece a perfumaria clássica e sua direção criativa junto com o perfumista Antoine Lie transporta o aspecto multifacetado, denso e carnal dos florais do passado para uma base que tem um incenso e ambar misterioso mas que para mim se encaixa bem na realidade mais direta dos perfumes contemporâneos.
Para quem gosta de florais com um F maiúsculo, Daphne é um prato cheio. Ele abre extravagante e voluptuoso, uma cornucópia de flores brancas que dançam na pele. O cheiro de um jasmim carnal se mistura a uma tuberosa canforada, doce e densa ao mesmo tempo que você percebe nuances de flor de laranjeira e gardênia. A iris é usada para suavizar isso mas ela também tem um lado mais carnal misturado em suas nuances powdery cinzentas.
Em paralelo as flores, corre o lado mais misterioso e primordial da fragrância, uma mistura de incenso, patchouli, ambar e oud que permeia a composição como um incenso oriental que se espalha no ambiente e se mistura com as flores brancas que o decoram. É interessante que a forma como o ambar é trabalhado nesse perfume lhe dá uma cara de perfume natural mas ao mesmo tempo é bem perceptível pela potência e nuances das flores que estamos em uma composição moderna que emprega o melhor possível dos sintéticos. Em 2017 Daphne não é mais um perfume tão fácil de achar, mas é uma caça que vale a pena pela qualidade e exuberância de seu cheiro.

English:
Certainly the Comme des Garcons brand is a kind of reference for 'alternative' celebrities who would like to create perfumes that flee from the common place while they are usable and interesting. In 2009 the brand collaborated with the fashion and socialite icon Daphne Guiness in her fragrance, which she described as a perfume that transports you from everyday and takes you into the past, a mysterious creation.
Generally I do not usually mention these statements because they tend to be illusory, but here they perfectly synthesize the perfume. Daphne certainly knows the classic perfumery and her creative direction along with the perfumer Antoine Lie transports the multifaceted, dense and carnal aspect of the past florals to a base that has a mysterious incense and ambar but that fits well into the more direct reality of the current perfumes.
For those who love floral with a capital F, Daphne is a full plate. It opens up extravagant and voluptuous, a cornucopia of white flowers that dance on the skin. The scent of a carnal jasmine mingles with a camphorous, sweet and dense tuberose at the same time that you perceive nuances of orange blossom and gardenia. The iris is used to soften this but it also has a more carnal side mixed in its gray powdery nuances.
In parallel with the flowers, it runs the most mysterious and primordial side of the fragrance, a mixture of incense, patchouli, amber and oud that permeates the composition like an oriental incense that spreads in the environment and mixes with the white flowers that decorate it. It is interesting that the way the amber is worked on this perfume gives it a natural perfume aura but at the same time is very noticeable by the power and nuances of the flowers that we are in a modern composition that employs in the best possible way the synthetics. In 2017 Daphne is no longer a perfume so easy to find, but it is a worthwhile hunt for the quality and exuberance of its scent.

Eudora Impression - Fragrance Review


Para mim é nítido que entre 2016 e 2017 a Eudora fez uma correção de rota. Criada como uma marca para trazer o diferencial para o segmento da perfumaria nacional, a Eudora nasceu com perfumes que poderiam facilmente serem criações importadas e muito bem elaboradas. Provavelmente isso não deu o retorno que esperavam e a marca resolveu então apostar no que o povão gosta mesmo com o objetivo de vender muito. E isso claramente é o que Impression entrega e sob essa perspectiva a marca é bem sucedida.
Em Impression a Empresa dá uma de louca e o posiciona como seu primeiro Eau de Parfum masculino, simplesmente ignorando que o excelente S.Excés existiu algum dia. Pela descrição dá para perceber que a criação será um grande clichezão que depende de frasco, faixa de preço e concentração para vender ("Impression foi criado para o homem talentoso, que sabe reconhecer os aprendizados da sua jornada e valoriza as pessoas que estão à sua volta.")
E quanto ao perfume? Bem, a sofisticação que a marca tenta propor fica no conceito e o resultado final é algo que atira na direção do que as outras vem fazendo ao mesmo tempo que mira no que se sabe que o público masculino gosta. Impression mescla cheiro superficial de ervas, especiarias frescas usadas como se esperaria e o acorde de couro/ambar que todo mundo tem usado. Há algo sutilmente adocicado e nuances de violeta e de um toque levemente powdery, porém, que impedem o perfume de ser entendiante.
No final das contas, se o que se procura é uma criação de fixação razoável, frasco bonito e de aroma conhecido, mesmo que banal mas bem feito, Impression entrega justamente isso. Deixe de lado a baboseira conceitual proposta e seja feliz.

Boticário Elysee Nuit - Fragrance Review

Parece que na perfumaria há uma certa maldição dos flankers que quando é feito uma versão noturna ou black do mesmo raramente tal flanker soa de fato como uma variação nessa linha do original. Elysée Nuit não foge dessa maldição e por mais que ele não seja um perfume ruim creio que deixa a desejar.
A proposta vendida pela marca é a de um perfume que revela seu lado mais ousado e uma criação inspirada nos mistérios e brilhos da noite. Porém, como sabemos, uma coisa é o marketing da perfumaria e outra coisa é a sua interpretação de fato. E na prática, Elysée Nuit passa longe disso.
Aliás, é como se o original fosse uma versão noturna e intensa desse e esse fosse o projeto original. Não há nada de ousado, misterioso ou noturno em Elysée Nuit, apenas um chypre moderno razoável com notas florais e um acorde frutado agradável. Apesar da marca criar a fantasia de rosas damascenas (que são caras e dificilmente seriam usadas em um perfume de 200 reais de forma significativa), as rosas de Elysée Nuit não apresentam de forma clara o aroma mais licoroso e com nuances de mel e tabaco que essas rosas possuem.
Até mesmo a base dessa versão é meio decepcionante, forçando no conceito chypre moderno com um perfume que soa mais como um musk com algo de amadeirado mesmo. Não é um perfume ruim, pelo contrário, tem uma evolução redonda e coerência nos elementos. Só não é interessante, não soa como uma versão noturna do Elysée, não tem performance parecida e não vende a faixa de preço de 200 reais para 50ml, um valor premium dentro da perfumaria nacional. Na minha opinião, não vale a pena.

14 de ago de 2017

Olibere Savannah's Heart - Fragrance Reciew


Português (click for english version):

Apesar de nova dentro do cenário da perfumaria a grife Olibere já se vê pronta para explorar um novo capítulo de sua jornada. A segunda coleção da marca é denominada de The Precious Collection e se propõe a oferecer criações em uma concentração mais rica, em Extrait de Parfum. Tal coleção é iniciada com Savannah's Heart, composta por um perfumista que cria pela primeira vez para a marca, Luca Maffei.

A primeira impressão que me salta em relação a Savannah's Heart é que ele não é um salto em estilo com relação ao que a marca já fazia. Marjorie Olibere parece ter um olho clínico na direção de sua marca para atingir o comercial conceitual e chic, de forma que suas criações não parecem banais mas também não oferecem grandes desafios a quem usa. É como uma série de fotografia que procura capturar o melhor ângulo possível de cenas conhecidas.

Sob a direção de Marjorie, Luca Maffei entrega algo que se encaixa bem na visão que se imaginaria de um ambiente árido de um Savana ao mesmo tempo que deixa sua marca registrada dentro da Olibere. Se sua história menciona que Luca cresceu em meio amostras de perfume eu tenho a impressão de que as criações de fundo amadeirado são sua predileção e onde o perfumista tem exercido com conforto seu estilo. Savannah's Heart só perde para mim do que é a obra-prima do perfumista, o maravilhoso perfume de iris e madeiras da Masque Milano, L'Attesa.

Aqui, Luca imagina olfativamente um ambiente onde madeiras e resinas predominam e que assim é definido por elas. Diferente da criação da Memo, African Leather, aqui estamos de fato em um local onde o aroma seco, resinoso e intenso das madeiras se espalha por um ambiente árido e seco. A sensação é a de uma mistura de agarwood, cedro, sãndalo e arbustos que exudam uma resina quente e de contornos ambarados e assabonetados. A interpretação mais comercial dessa ideia se dá pela forma como esses elementos são equilibrados para que nada se torne sufocante. O lado mais seco das madeiras é suavizado por musks, um leve toque de especiarias e tons de baunilha.

A príncipio questionei a classificação de Savannah's Heart como um extrato, já que numa impressão inicial seu aroma parecia se comportar mais como uma edp. Porém, é perceptível para mim após o uso que o perfume foi calibrado para ser persistente sem ser denso demais, rico sem ser enjoativo, o que talvez não agrade a todos os fãs dessa concentração. É um perfume porém que surpreende com o tempo em sua performance e agrada em sua execução, um bom começo dentro da nova coleção da marca.

English:

Although relative new in the perfume business the Olibere brand is already ready to explore a new chapter of its journey. The second collection of the brand is called The Precious Collection and proposes to offer creations in a richer concentration,  Extrait de Parfum. Such a collection begins with Savannah's Heart, composed by a first-time perfumer for the brand, Luca Maffei.

The first impression that jumps on me about Savannah's Heart is that it's not a leap in style with what the brand already did. Marjorie Olibere seems to have a clinical eye towards her brand to achieve the conceptual and chic commercial, so that her creations do not seem banal but also do not offer great challenges to those who use. It is like a series of photography that seeks to capture the best possible angle of known scenes.

Under the direction of Marjorie, Luca Maffei delivers something that fits well with the vision you would imagine of an arid environment of a Savannah while leaving his trademark inside the Olibere brand. If the story mentions that Luca grew up amid perfume samples, I have the impression that creations with a woody background were his fondness and it's where the perfumer has comfortably exercised his style. Savannah's Heart only loses for me what it is the perfumer's masterpiece, the wonderful fragrance of irises and woods made for Masque Milano, L'Attesa.

Here, Luca conjures up an environment where woods and resins predominate and are thus defined by them. Unlike the creation of Memo, African Leather, here we are in fact in a place where the dry, resinous and intense aroma of the woods spreads through an arid and dry environment. The sensation is that of a mixture of agarwood, cedar, sandalwood and shrubs that exude a warm resin and with amber and soapy contours. The most commercial interpretation of this idea is given by the way these elements are balanced so that nothing becomes stifling. The driest side of the woods is softened by musks, a light touch of spices and vanilla tones.


At first I questioned Savannah's Heart's classification as an extract, since in an initial impression its scent seemed to behave more like an edp. However, it is noticeable to me after the use that the perfume was calibrated to be persistent without being too dense, rich without being cloying, which may not please all fans of this kind of concentration. It is a perfume that surprises with time in its performance and pleases in its execution, a good beginning within the new collection of the brand.

13 de ago de 2017

Mendittorosa Rituale - Fragrance Review



Português (click for english version):

É bem interessante que enquanto muitas marcas vem explorando a riqueza olfativa das notas a Mendittorosa se volta para a riqueza de emoções, mitos e simbologias que podem ser atrelados a um perfume. É um trabalho mais artístico e certamente mais pessoal, um que pode não encontrar identificação em um público vasto de pessoas mas um que mostra um fio condutor claro de sua idealizadora. Stefania não está preocupada em seguir o vento de fato e não se importa de ir contra ele.

O misticismo da marca de uma forma ou de outra se ancora no classicismo e no atemporal e isso fica bem claro para mim em Rituale, um dos novos perfumes da marca que une uma maravilhosa fragrância com um frasco elegante. A tampa de Rituale eleva a apresentação a uma obra de arte, algo que me faz pensar tanto no universo, no caos e por algum motivo na medusa. E o perfume em si novamente não decepciona.

Estamos diante de uma homenagem a perfumaria como ritual, a forma mais primitiva de perfumaria, onde resinas eram queimadas para que sua fumaça aromática ascendesse aos Deuses. O ato de se perfumar é em si um ritual e é isso que é celebrado aqui com uma composição que me faz pensar em florais ambarados do passado mas que certamente não parece datada.

Eu sinto rituale de forma inversa, com as notas de base me impactando primeiramente. É um cheiro que me faz pensar em incenso, resinas adocicadas, aroma de mel e aroma de nuances animálicas. É algo rico, solene e sensual ao mesmo tempo, uma união entre algo sagrado e profano talvez. E conforme a visão se torna mais clara é possível perceber a beleza do corpo floral, a exploração das nuances de laranjeira do narcissus embebido no aroma das pétalas de rosa e no aroma frutado de jasmim. Essa nuance frutada é explorada na saída e combinada com toques cítricos que acabam ressaltando o aspecto dourado de mel da base.


Depois de algumas horas rituale evolui para um aroma confortável de patchouli com nuances de couro, ambar e retendo parte do aroma de mel que permeia o perfume em seus primeiros momentos. De fato é uma criação que após aplicada na pele não se vai, não some em determinados momentos de sua evolução, um perfume marcante, complexo e belo. Com a ajuda da excelente perfumista Amelie Bourgeois's Stefania segue seus princípios artísticos e nos entrega outra maravilha em sua marca.

English:

It is very interesting that while many brands have been exploring the olfactory richness of notes, Mendittorosa turns to the wealth of emotions, myths and symbologies that can be attached to a perfume. It is a more artistic and certainly more personal work, one that may not find identification in a vast audience of people but one that shows a clear guiding thread of its idealizer. Stefania is not worried about following the actual wind and does not mind going against it.

The mysticism of the brand in one way or another is anchored in the classicism and timeless and this is clear to me in Rituale, one of the new perfumes of the brand that unites a wonderful fragrance with an elegant bottle. The cap of Rituale elevates the presentation to a work of art, something that makes me think so much of the universe, the chaos and for some reason in the Medusa. And the scent itself does not disappoint.

We are in front of a homage to perfumery as a ritual, the most primitive form of perfumery, where resins were burned so that their aromatic smoke ascended to the Gods. The act of perfuming is itself a ritual which is celebrated here with a composition that makes me think of amber florals of the past but that certainly does not seem dated.

I smell Rituale in its reverse, with the base notes impacting me first. It is a scent that makes me think of incense, sweetened resins, honey aroma and the aroma of animalic nuances. It is something rich, solemn and sensual at the same time, a union between something sacred and profane perhaps. And as the vision becomes clearer it is possible to perceive the beauty of the floral body, the exploration of orange blossom nuances in the narcissus but soaked in the aroma of rose petals and the fruity aroma of jasmine. This fruity nuance is highlighted at the opening and combined with citrus touches that emphasize the golden honey aspect of the base.


After a few hours Rituale evolves into a comfortable patchouli scent with hints of leather, amber and retaining part of the honey scent that permeates the scent in its first moments. In fact it is a creation that after applied to the skin does not go away, does not disappear in certain moments of its evolution, a striking, complex and beautiful perfume. With the help of the excellent perfumer Amelie Bourgeois's Stefania follows her artistic principles and gives us another marvel in her brand.

3 de ago de 2017

Talismans Osang - Fragrance Review


Português (click for english version):

Criada recentemente, a Talismans é uma marca parente da Mendittorosa que agrupou em si as criações da marca cujo o conceito estavam relacionados a perfumes como talismãs místicos, cada um com uma temática diferente. Recapitulando, em Le Mat temos talismã que representa a busca pelo belo em inconvencional, em Sogno Reale um que se aventura pelo mundo dos sonhos e subconsciente e em Nettuno uma aventura relacionada ao universo e a aura mística de um de seus planetas. Em Osang a marca cria um talismã relacionado ao místico da Itália, homenageando o patrono de Nápoles, São Januário

Pela lenda, o sangue de São Januário se transforma e passa do estado sólido para o estado líquido durante as festividades que acontecem na homenagem ao santo. Esse aspecto sagrado e de metamorfose é retratado em Osang, sendo assim o Talismã da transformação e da proteção. Um perfume que assim celebra santos e superstições em sua essência.

É importante ressaltar que como nos demais integrantes da coleção Osang não faz uma interpretação literal de seus conceitos, e sim uma abstração que une o aspecto clássico, abstrato e poético de suas ideias a sensibilidades modernas do consumidor. Certamente é um desafio, visto que utilizar resinas, bálsamos e materiais clássicos da perfumaria com leveza e persistência requere um ajuste fino para que não se favoreça mais um objetivo ou outro.

Osang me conquista na saída, com uma abertura bem clássica e intensa em seu aroma aldeídico. É algo que me faz pensar nos aldeídos utilizados no Chanel No 5, porém em outro contexto. Simbólicamente eles me parecem representar o sagrado e sobrenatural, já que a natureza de alguns aldeídos em si parece sempre refletir a alma de flores e materiais que não fazem parte desse mundo. As pyrazinas utilizadas acrescentam um aspecto interessante a composição, criando uma aura torrada que remete distantemente a café, se misturando ao aroma floral abstrato e luminoso dos aldeídos. E lentamente a metamorfose e transição acontece para um corpo que utiliza um aroma adocicado de mel e um aroma torrado e especiado de feno-grego com musks e nuances de iris de fundo, sendo que esses parecem também aludir aos perfumes clássicos da era do Chanel No 5. As resinas vão se revelando de forma moderada, dando um aspecto mais adocicado, quente e moderno a base.

Osang me surpreende pela sua sofisticação e delicadeza versus sua persistência. De fato sua tranformação pode ser vista como uma prece, algo que não é feito para se chamar a atenção dos outros. É um perfume condizente com a natureza abstrata, poética e mais pessoal da coleção onde ele se encontra. E é uma das criações da marca com o frasco mais bonito e impressionante, um belo uso de forma e conteúdo.

English:

Created recently, Talismans is a Mendittorosa relative brand that has grouped in itself the creations of its parent whose concept was more related to perfumes as mystical talismans, each with a different theme. To recapitulate, in Le Mat we have a talisman that represents the search for the beautiful in the unconventional, in Sogno Reale one who ventures through the world of dreams and subconscious and in Nettuno an adventure related to the universe and the mystical aura of one of its planets. In Osang the brand creates a talisman related to the mystic of Italy, honoring the patron of Naples, San Gennaro.

Legend says that the blood of San Gennaro changes from solid to liquid during the festivities that take place in honor of the saint. This sacred and metamorphosis aspect is portrayed in Osang, thus being the Talisman of transformation and protection. A scent that thus celebrates saints and superstitions in its essence.
It is important to emphasize that as in the other members of the collection Osang does not make a literal interpretation of its concepts, but rather an abstraction that unites the classic, abstract and poetic aspect of its ideas with the modern consumer sensibilities. Certainly it is a challenge, since using resins, balms and classic perfumery materials with lightness and persistence requires a fine adjustment so that one does not favor one goal or another.

Osang conquers me at the opening with a very classic and intense aldehydic aroma. It's something that makes me think of the aldehydes used in Chanel No 5, but in another context. Symbolically they seem to represent the sacred and supernatural, since the nature of some aldehydes itself always seems to reflect the soul of flowers and materials that are not part of this world. The pyrazines used add an interesting aspect to the composition, creating a roasted aura that distantly refers to coffee, mixing with the abstract and luminous floral aroma of the aldehydes. And slowly the metamorphosis and transition happens to a body that uses a sweet honey scent and a spicy fennugreek with musks and iris nuances in the background, and these also seem to allude to the classic perfumes of the Chanel No era 5. The resins develop in a moderate way, giving a sweeter, warm and modern aura to the base.


Osang surprises me by its sophistication and delicacy versus its persistence. In fact this transformation can be seen as a prayer, something that is not meant to get the attention of others. It is a perfume consistent with the abstract, poetic and more personal nature of the collection where it is found. And it is one of the brand creations with the most beautiful and impressive bottle, a beautiful use of form and content.